domingo, novembro 02, 2008

Por que Rosinha ganhou

Ainda na campanha do primeiro turno em Campos, em 21 de setembro, escrevi aqui neste espaço sobre as razões invisíveis me faziam acreditar no favoritismo de uma candidatura à Prefeitura de Campos. Se a justiça eleitoral permitisse, o título teria sido “Por que Rosinha vai ganhar a eleição”.

Mas tive que deixar na entrelinha: “Nestas eleições, em Campos, suspeito que esteja ocorrendo um fenômeno que, infelizmente, não poderei comentar aqui de modo explícito em razão das limitações impostas pela Justiça Eleitoral aos veículos de comunicação. Poderia haver a suspeita de que, ao comentar as chances elevadas de vitória de uma determinada candidatura, eu estaria, na verdade, tentando influenciar o leitor a fazer a opção por ela”, disse na época.

O que considerava é que há muitas razões objetivas para explicar o voto. Mas há também motivações não explícitas, no plano da comunicação e das mentalidades, que não podem ser desconsideradas.

A percepção popular é a de que Rosinha é a heroína que voltou, como reforça o próprio jingle que diz que “a nossa governadora voltou”. É a estrutura mais clássica das narrativas. Isso deu um caráter de redenção à sua candidatura, que se acentua com o seu papel de mulher e de mãe, enérgica e protetora.

E há ainda algo mais decisivo: Rosinha é uma personagem da TV. Ela é ponto de contato da população com um mundo mágico de celebridades. Tocar Rosinha, apertar sua mão, é semelhante a conseguir um autógrafo de um astro — o que não duvido que tenha ocorrido muitas vezes em suas caminhadas.

Ela não era apenas uma candidata. Pela primeira vez na história de Campos, o eleitor estava diante de uma candidata-celebridade. E isso, no mundo do entretenimento em que vivemos desde o desenvolvimento da comunicação de massa, no início do século XX, faz muita diferença.

Uma vez a vi em contato com a sua militância. Reparei nos olhos que se fixavam nela. Eram de pessoas que pareciam estar diante de uma estrela, não de um político tradicional. E ela, conhecedora deste efeito, procurava se comportar como tal.

A superioridade do seu desempenho nos debates confirmou a expectativa popular de que havia ali alguém não necessariamente melhor preparado para governar, mas para representar a cidade, “fazer bonito”, “falar bonito”. Era alguém que já foi entrevistada pelos principais programas da TV do país, além de ter tido o seu próprio programa.

O marketing de Rosinha fez parecer que a candidata era uma espécie de dádiva que Campos receberia, depois de um período de trevas. Era até mais do que o município merecia, mas a magnanimidade de Rosinha a fazia voltar à cidade e se submeter “ao sacrifício” da campanha eleitoral. Tudo pelo povo, como fazem os heróis.

É claro que isso não tem a ver com o real, mas com as representações do real. Como mostraram as urnas, no entanto, seus efeitos são concretos. Cada vez mais, ser um gênio da política significa ser um gênio da comunicação. Alguém aí pensou em Anthony Garotinho?

[Publicado na edição de hoje do Monitor Campista]

10 comentários:

Soprador de Vidro disse...

Pensei, sim, em Anthony Garotinho, lembrando que, numa proporção menor, ele também era uma celebridade à época de sua primeira eleição à prefeitura de Campos, por conta do fato de ser um radialista muito ouvido. E que, mais ou menos como ela, voltou, em 1996, após ter perdido a primeira eleição para o governo do Estado, como uma celebridade já mais consolidada. Na campanha de 1994, saiu até um LP com versões em vários ritmos do jingle dele: "Garotinho, é gente da gente/Garotinho, o governo competente". Eu tenho. Depois, ele publicou um relato sobre sua conversão à Igreja Presbiteriana, após a derrota no pleito em que disputou com Marcelo Allencar, ambas motivadas, segundo o candidato por um acidente automobilístico ("Virou o carro, virou minha vida"). Eu também tenho. Em suma: quando voltou a Campos, ao final do governo de Sérgio Mendes, representava algo como um novo D. Sebastião.

George Gomes Coutinho disse...

Boa análise Vitor.

Estamos devendo uma no padrão desta no "outros campos"... Só não saiu ainda por conta da proximidada atabalhoada do final de semestre.

Mas precisamos de leituras lúcidas sobre o processo eleitoral ocorrido em Campos. Houve uma tendência em parte da imprensa de culpabilizar a (péssima) assessoria de Arnaldo por sua derrota.

O que é só parte da explicação. A "questão Rosinha" é calcada em outras questões... Como a que você procurou destacar, um símbolo cultural do capitalismo tardio, a personificação da espetacularização da política em gestos, bocas e terninho rosa.

Parabéns. Acho que lá em dezembro traremos algo neste sentido...

Abçs

Simone Pedro disse...

Vitor, concordo plenamente com sua abordagem mítica em relação à campanha da candidata eleita. Eu mesma já havia escrito um texto onde brinco que nossos heróis, atualmente, são as celebridades de TV e, quem quisesse ser eleito, assim deveria se mostrar ao público.Como você mesmo citou, Rosinha está na fase do retorno enquanto heroína. Espero que o fim de seu governo seja tão glorioso quanto a fase da morte destes mesmos personagens mitológicos.

Jornalista Desempregado disse...

Se radialista é celebridade e serve pra ganhar eleição, teriamos na camara: Neinha, Chico da Radio e Felício de Souza. Concordo com o post, mas discordo veementemente do comentario das 10:59h.

Mt bem colocada a condiação de celebridade de Rosinha pela posiçao politica que ja havia conquistdo, assim como a tatica do marido da mesma em mante-la na mídia com o programa matinal de Sábado na Bandeirantes durante longo tempo - alias, existe um buchicho de que a Band-Barra Mansa faz parte do Grupo Diario de comunicação, mas nao confirmo a informação - é apenas forte boato que sempre ouvi.

ENfim, o q quero dizer é que ela nao so se tornou "celebridade" como soube sê-la. Lembremos que fazemos parte de um pais que elitista mas que possui maide 100 dos 180 milhoes de sues habitantes da classe C para baixo. E isso faz toda diferença.

So pra fechar: que tenha havido compra de votos, eu nao duvido. mas reitero o que ja disse: atribuir uma vantagem de quase 25 mil votos a compra dos mesmos, é mt absurdo. 50/voto daria mais de UM MILHAO E 250 MIL REAIS de um recurso que nao garante a boa fé do eleitor no candidato.

Parabens pelo post.

Macalé disse...

Comparar Felicio, Chico da Rádio e Neinha com Antony Garotinho, é o mesmo q comparar Pelé com Odvan. O poder de persuasão de Garotinho, e ensinado muito bem a Rosinha, é infinitamente maior q de todos os outros citados. Vale lembrar q não estou puxando o saco dele e q concordo com os desvios, silveirinhas, alvaros lins e muito mais.

Não se pode negar a genialidade, isso mesmo genialidade, de um homem q duas vezes ruiu o castelo de poder e corrupção q e instalou em Campos.

Mesmo sabendo q é quase impossível, torço para q eles (os Garotinhos) não repitam em Campos oq fizeram no estado.

Gustavo Landim Soffiati disse...

Jornalista,
Até entendo que discorde de mim, principalmente porque não aprofundei devidamente meu comentário. Mas não dá para compararmos ao Garotinho de 1988 radialistas como Felício de Souza e, sobretudo, Neinha Freitas. Os tempos são outros. Sem ir muito longe: àquela época, quando a primeira figura de uma profissão popular foi eleita prefeito de Campos (o que era, portanto, uma grande novidade), não havia ainda segundo turno - a vitória dele sobre Rockfeller de Lima foi de cerca de 11 mil votos.

Jornalista Desempregado disse...

Caro colega Landin.

Eu sou dos que acham que Garotinho é um ser de inteligencia estrategica fora do comum, que estraga-se por nao saber lidar com o próprio ego. Sendo assim, jamais compararia o mesmo com locutores de porte tão mínimo como os que citei.

Apenas declarei que puro e simplesmente "ser da rádio" - ou de qualquer outro meio de comunicação, como o Delegado Pereira foi colunista da Folha por 1 ano, etc. - nao adianta nada para se eleger, quem dirá para se candidatar a celebridade, se a pessoa nao souber sê-lo.

Uma vez a pessoa atingindo status na mídia, ela deve saber se portar como tal. Ela soube se "endeusar", saindo do governo do estado direto pra Tv (6 meses de "descanso" foram nada perto da ênfase com que passavam comerciais sobre o programa dela a todo momento) e portou-se como devia.

Dar o poder a quem nao sabe lidar com o mesmo é caso ja visto: Pudim perdeu a eleiçao para prefeito 2x, sob a mesma indicação de Garotinho. Rosinha soube aproveitar a chance que teve nas maos, seja por competência, seja por vocação.

E so pra fechar a discussao que já vismo que todos temos algo de razão: quem perdeu essa eleição foi a incompetência de Arnaldo e Mocaiber: o primeiro por nao se preparar para o pleito e sua assessoria igualmente fraca; e o segundo pela incompetencia com a qual administrou, rodeado de escandalos e com o ultimo (literalmente) CASO que teve, sem necessidade de nos aprofundarmos mais.

Cordiais abraços a todos pela prazerosa discussao.

Rafael disse...

Belo post caro professor. Vale citar também a eleição de figuras ímpares, como Frank Aguiar, para o alto escalão da política brasileira. Clodovil Hernandes pode ser outro exemplo, afinal de contas, deve ser engraçado, na cabeça do eleitor desavisado, votar no Clodovil. Ver a foto dele na urna deve ser, no mínimo, risível (ou deplorável?).

Sem comparações com a política local, apenas um comentário para ilustrar o que foi dito.

Abraços

Rafael disse...

Belo post caro professor. Vale citar também a eleição de figuras ímpares, como Frank Aguiar, para o alto escalão da política brasileira. Clodovil Hernandes pode ser outro exemplo, afinal de contas, deve ser engraçado, na cabeça do eleitor desavisado, votar no Clodovil. Ver a foto dele na urna deve ser, no mínimo, risível (ou deplorável?).

Sem comparações com a política local, apenas um comentário para ilustrar o que foi dito.

Abraços

Rodrigo Rosselini disse...

Isso me lembra a história do "Les Rois Thaumaturges" de March Bloch, quando as pessoas na França acreditavam que um simples toque do rei seria capaz de curar doenças. E mesmo não curando, continuavam acreditando.
Me lembra também uma outra história, de um intelectual anti-nazista (não me lembro agora o nome) que, ao assistir a um comício de Hitler, retirou-se rapidamente do local para não se contagiar com a forte comoção que tomava as pessoas naquele momento.

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