Entre curiosos acerca dos hábitos do lagarto de rabo verde, espécie protegida no local, e impressionados com a profusão de dólares produzidos a cada dólar investido pela EBX no seu espalhar de X pelo mundo, blogueiros da região visitaram hoje pela manhã o Superporto do Açu, em São João da Barra (RJ), que tem previsão de funcionamento para o segundo semestre de 2012.
A cena árida que pede constante plano aberto da praia do Açu começa a dar lugar ao concreto, ao asfalto e às ferragens. Deslumbrante para quem gosta de “progresso”. Preocupante para quem vê a natureza se espremer entre contrapartidas, elevados sobre a areia (por onde passam os tais lagartos), marketing institucional e licenças ambientais transformadas em atrativos para mais investimentos.
Os brinquedos dos engenheiros no momento são os core-locs, peças de 12 toneladas de concreto que serão encaixadas para formar a parte de cima do quebra-mar que protegerá o porto, sobre as toneladas de pedras que são retiradas do Itaoca e armazenadas no “pulmão de pedras”. Serão 22 mil peças. Há aproximadamente sete mil feitas até o momento.
Mas há outros. Há a obra do minerioduto, que já está aparente em diversos pontos na areia branca do Açú. Há a unidade de processamento de minério, que chama atenção na paisagem. Há, por fim, a pista que chega a 2,9 km mar adentro, que levará aos dez berços de atracação de navios de grande porte, que necessitam de até 21 metros de profundidade — e onde bate um vento que parece que vai nos atirar na água revolta.
Tudo é grandioso, e não apenas pelo presente. O futuro anunciado também impressiona. Logo na chegada uma detalhada maquete, auxiliada por amplo adesivo de parede, mostra a previsão de investimentos para o complexo industrial, que terá siderúrgica, usina termoelétrica, cimenteiras, pólo metalmecânico, usinas de pelotização de minério, unidade de tratamento de petróleo, fábrica de carros, e o que mais vier.
Hoje mesmo, à tarde, visita o superporto uma delegação norte-americana, e sabe lá o que isso resultará. Antes, vieram os chineses, e os resultados conhecemos, com 200 alunos em oito turmas matriculadas em cursos de mandarim em São João da Barra.
Os trabalhadores parecem bem tratados e em segurança, embora um deles já tenha morrido na obra — uma “fatalidade”. De fato tudo é muito organizado e todos os cuidados parecem ser tomados. Vi operários com EPIs (Equipamento de Proteção Individual), mas não encontrei nenhum com um sorriso tão largo quanto o de Eike Batista.
Só achei estranho um guarda-corpo tão enferrujado e amarrado com arames em uma obra tão sofisticada e cercada de cuidados. Certamente é algo provisório.
Olhando tudo aquilo tem-se a noção do quanto o projeto do porto é mesmo irreversível. Para o bem ou para o mal, a região de fato mudará, e a projeção, que por algum tempo foi feita com espanto, agora é dita com naturalidade: a pequena São João da Barra saltará dos 30 mil habitantes para 250 mil em poucas décadas.
A quase mítica Cidade X, um condomínio-cartão-postal com preocupações ecológicas, deverá mesmo existir. Mas não se sabe onde e nem quando. O que se sabe é que será para poucos. O entorno é que precisa se cuidar. E a contrapartida da empresa tem sido investimentos em programas comunitários, que vão de alfabetização à melhoria logística para a atividade da pesca no município, mas não é difícil supor que, quando os 250 mil chegarem, isso não será suficiente.
A preocupação ambiental e as aparentes boas práticas empresariais, os milhares de empregos gerados e o incremento de toda uma cadeia de pequenos e médios negócios que se forma nas comunidades, são o lado bom da história. Resta saber o que está reservado para os que não têm o rabo verde.
[ Clique nas imagens para ampliá-las. Do alto para baixo: vista da parte extrema do porto mar adentro; Core-locs de concreto fabricados no local, com 12 toneladas cada; Guarda corpo que não condiz com sofisticação da obra; Quebra mar, com ponte provisória, onde são carregadas as balsas que levam as pedras para o porto; Canal protegido entre os vários que, segundo a empresa, formam uma rede maior que a de Veneza; Vista do ponto de recepção dos visitantes - Fotos: Vitor Menezes]