segunda-feira, outubro 13, 2014

[croniquinha de segunda]

O cronista e o poeta

Críticos acirrados um do outro, cronista e poeta se esbarraram na Rua das Moças, no Centro, onde apreciavam as pernas de fora das meninas. Como não perdem oportunidade de se alfinetarem, puxaram cadeira, lado a lado, no boteco mais próximo, a menos de dez passos de onde se encontraram. Pediram cerveja, embora o cronista quisesse whisky 12 anos. Nem no paladar etílico se entendiam. Rusga antiga, de anos, talvez décadas e, quiçá, séculos. A oposição mútua encobria certa atração, como dizem ocorrer com inimigos ferrenhos.

- Você faz rimas, que chama de versos. Tenta unir amor com flor, coração e paixão... Coisa ridícula, brega, pobre. - dispara o cronista.

- Inveja, pura inveja. Tenho o poder de síntese, consigo resumir. Não preciso me estender em linhas e linhas, coisa chata! - devolve o poeta.

Silêncio curto. Tempo para o cronista preparar a defesa.

- A escrita tem que ser fluente. Sair por aí declamando frases que ninguém entende é exibicionismo puro.

De primeira, o poeta emenda:

- Meus textos podem virar letra. E com a música, a mais popular das artes, serem imortalizados. E os seus?

- Os meus? Tem certeza que pergunta isso? Posso ver minha escrita até no cinema! - retruca o cronista.

Os argumentos são fortes, mas não convencem ambos. Três, quatro garrafas depois, mínimo nível alcoólico atingido, resolvem estancar as ofensas. Combinam, para continuidade da convivência sadia, que não vão mudar de opinião. Só que conseguem enxergar, já anestesiados, que, ambos, vêem poesia na vida. E, amantes das palavras, se expressam como querem e preferem. Afinal, o ídolo maior dos dois, Charles Bukowski, rabugento que só, conciliava, ele mesmo, os dois estilos. Enfim, brindaram.

Álvaro Marcos Teles

segunda-feira, setembro 01, 2014

[croniquinha de segunda]

Consulta eleitoral

Doutor Wando abriu largo sorriso quando me viu.

- Muito bom dia, jovem! O que o traz aqui?

- Bem, doutor, eu queria fazer um check-up.

- Sim, muito bem. Fuma?

- Não.

- Bebe?

- Sim, aos fins de semana.

- Sempre tem que ter?

- Não, nem sempre.

- Melhor assim. Eu bebo todo dia.

Ele levanta a cabeça, me olha por sobre a armação de lentes grossas e, semblante fechado, tasca:

- Quem ganha para presidente?

- Hã? Não entendi!

- Um nome, me dê um nome.

- Bem, a disputa está entre Dilma, Marina e Aécio...

- A Marina! Eu acho que ela ganha, não com meu voto.

- É, subiu muito nas pesquisas...

- O brasileiro é emotivo, meu filho. Está sensibilizado.

- Realmente, doutor, até minha mãe vai votar nela agora.

- Viu, não disse... Para você, o que atrapalhou a Dilma ultimamente?

- Hum... talvez a entrevista para o Jornal Nacional...

- A crise na Petrobras! Isso ainda vai dar pano para manga.

- A disputa está embolada.

Ansioso e constrangido, quis pedir para ele medir minha pressão. Não deu tempo.

- E para governador, quem você acha que ganha?

- Garotinho está na frente, mas Crivella e Pezão vêm logo atrás...

- Esse rapaz daqui leva. Ele é terrível. Tem o poder do convencimento.

- É, lidera as pesquisas...

- E a filha, olha, segue o mesmo caminho. Fala muito bem.

- Concordo, doutor, ela tem o dom da política.

- A moça tem uma carreira brilhante no cenário nacional.

- É, pode ser.

- Tenho certeza.

- Doutor, o senhor pode pedir um exame de sangue completo, é que eu...

- E para deputado estadual e federal, vota em quem?

Paciência esgotada.

- Será que o senhor pode verificar minha pressão?

- Tem uma farmácia a uns 200 metros daqui. Quando tiver o resultado, traz para eu ver.

- Mas doutor Wando...

- Eu sei, jovem, ainda nem falamos sobre o Senado. Deixa esse assunto para a volta. Você gosta mesmo de política, hein!

Álvaro Marcos Teles


segunda-feira, julho 14, 2014

[croniquinha de segunda]

Identidade Futebol Clube

Foi batizado de Francismário. Para o mundo do futebol, escolheu simplesmente "Mário". Mais fácil e impõe respeito. Quem iria obedecer cegamente às ordens de um jovem técnico chamado Francis... O sonho de ser jogador profissional ficou para trás ainda na infância por simples falta de habilidade. Deu lugar a vocação para treinador, descoberta precocemente.

Aos 32 anos, comanda com mão de ferro o time Sub 13. Aderiu ao estilo duro que consagrou Yustrich, Telê Santana e, mais recentemente, Luiz Felipe Scolari e Muricy Ramalho. Apesar do semblante sempre fechado e das broncas, dá vazão ao lado paternal quando identifica carência afetiva em algum jovem atleta. Nestes casos, lembra mais Joel Santana.

Início de ano, recebeu nova leva de garotos. E se impressionou pela quantidade de identidades diferentes. Tinha Cristhoper, Phellype, vários Maycon e uma infinidade de Jhonatan. E com variações. Alguns com dois agás ao lado do jota. Outros com o agá também depois do tê. Tantos mais com dois ênes no final. E um com tudo isso e um êne junto ao primeiro êne.

Pensou numa forma inusitada de chamar a atenção para a nova equipe: que tal uma escalação só com esses de grafia estrangeira? Avaliou que ia parecer uma agremiação inglesa. Não causaria tanto impacto. Coçou a cabeça, franziu a testa, fez as contas e viu dava para ter o 1 a 11 de um jeito, imaginou, inédito na história do esporte mais conhecido do planeta.

Escreveu na prancheta todos os possíveis titulares; Jhonatan Silva, Jhonatan Alves, Jhonatan Diego, Jonatan Clemente e Jhonatann Carlos; Jhhonatan Henrique, Jhonatann Manuel, Jhonatan César e Jhonathan Renato; Jhhonnathann Falcão e Jhonathan Babu. Pronto: escava credenciado a despertar o interesse dos torcedores, dos dirigentes, da mídia, da FIFA...

Chegou em casa eufórico, louco para contar a novidade à esposa. Ela, além de dona do lar, servia como conselheira esportiva. Dava sugestões, discordava de opiniões... Antes que pudesse abrir a boca, ouviu da mulher a notícia sobre a descoberta do sexo do bebê que ela esperava. Ultrassonografia nas mãos, sorriso escancarado, ela emendou de primeira:

- Amor, é um menino. Já pensei até no nome: que tal Jhonatan?

Álvaro Marcos Teles

segunda-feira, maio 12, 2014

Negócio de marketagem...


[croniquinha de segunda]

José Augusto, você conhece?

Álvaro Marcos Teles

Fila do caixa eletrônico do shopping. Um homem, entre 30 e 35 anos, falava alto ao telefone. Daquele tipo espalhafatoso, que não se importa se os outros estão ouvindo a conversa. Exibido a ponto de gostar de chamar a atenção mesmo durante as intimidades. Faltou-lhe beleza. Passou longe da perfeição odontológica. Os dentes da frente, quebrados e desalinhados, ajudaram a compor uma voz relativamente fina, adocicada e irritante.

Tinha um sotaque esquisito. Por vezes pareceu ser da Baixada Fluminense, dado ao excesso de gírias. Em outras frases, carregou tanto nos érres que pode facilmente ser confundido com um interiorano paulista. Usava um jeans desbotado e camisa polo de largas listras azul e branco. Ostentava dois brincos de prata em cada orelha: um par de argolas grossas e outro de estrelas. O celular, longe dos modernos Galaxys e Smartphones, era de um modelo antigo com teclas.

- Vamos ao show do José Augusto? Ele canta aquela música: "quero explodir por dentro, inventar uma paixão..." Você conhece?

Três segundos de silêncio.

- Ah, não tem problema. Me dá esse gosto que prometo ir contigo ver o Jeito Moleque. Esse eu já não curto. Faz a minha vontade e eu faço a sua, que tal?

Nova pausa, pequena.

- Eu durmo lá pelas quatro da manhã. Minha vida é uma loucura, tudo de cabeça para baixo. Prometo não ficar te alugando até tarde, pode deixar.

Desligou.

Coçou o cabelo ralo. Bateu com as mãos nas pernas, demonstrando ansiedade. Pegou o celular de novo.

- Alô, Beth...

Tirou o aparelho do ouvido e o encarou, raivoso.

- Droga, o Vivo ela não atende. Vou digitar o número da Claro.

Pareceu inválido.

Chegou a vez de usar o 24 horas. Pegou um cartão da Caixa Econômica Federal. Quis sacar. Outra vez. Terceira tentativa. Socou o equipamento, puxou a parte da calça que já deixava a cueca preta à mostra, e saiu irado.

- Isso aqui é uma merda.

Os outros integrantes da fila se entreolharam e riram, discretamente. Uma moça morena, de cabelos tingidos de amarelo nas pontas, camiseta branca e short curto desfiado, reagiu.

- Que mala, hein! Deus me livre de um encosto desse.

Ele ouviu. E não perdeu tempo.

- Ei, gracinha, vai fazer o que hoje à noite? Tenho duas entradas para o show do José Augusto. Ele canta aquela música ...

terça-feira, abril 22, 2014

Prefeito de Tiradentes não atravessou o Rubicon

Ralph Justino, prefeito de
Tiradentes (MG)
Ontem estive com o prefeito de Tiradentes (MG), Ralph de Araujo Justino (PV). Ele não me conhece. Nem eu a ele. E assim continua a ser. Mas isso não impediu que este chefe de um poder local servisse à minha família uma bela concha de feijão fradinho. Foi no Banquete da Inconfidência, uma das atividades de uma programação cheia de civismo em memória do mártir Joaquim José da Silva Xavier.

Sem seguranças, sem séquito de puxa-sacos, acompanhado apenas de sua esposa, ele se pôs a labutar atrás de uma das mesas que ofereciam comidas a moradores e turistas. E não foi aquela cena típica de "abrir os trabalhos", fazer a foto oficial e sair. Ele ficou lá até acabar todo o caldo de  um panelão daqueles de cozinha industrial. Sem cobertura da secretaria de comunicação ou da imprensa local.

Era apenas mais um. E nem o principal. A sua mesa não era das mais disputadas, em concorrência desleal com as que ofereciam leitão à pururuca, linguiça de jiló, frango com ora-pro-nobis, entre outras delícias mineiras.

Mais cedo, ele havia feito seu papel oficial. Colocou coroa de flores na estátua de Tiradentes, hasteou a bandeira brasileira, acendeu a pira da liberdade e fez um discurso breve. Disse que a cidade tinha uma obrigação para com o Brasil, de preservar a memória do inconfidente e todo aquele patrimônio, mas que também tinha necessidades comuns a qualquer cidade, e precisava, no presente, manter-se como um bom lugar para viver.

Observando a simplicidade do prefeito, que me pareceu genuína, lembrei do presidente do Uruguai, José Mujica, que, infelizmente, ainda não me serviu um feijão fradinho, mas tenho certeza que o faria com prazer em seu sítio — se houvesse feijão fradinho no Uruguai.

Figuras assim não são necessariamente melhores ou piores na condução de governos, mas acabam por, ao liderar pelo exemplo, imprimir na política um sentido de transformação cotidiana acessível a todos. Gentileza, educação, simplicidade, são exercícios que qualquer cidadão pode praticar e que tornam a cidade muito melhor.

De tão raros, são por vezes tomados como loucos, como Lulu Bergantim, prefeito de Curralzinho Novo, cidade encravada na imaginação de José Cândido de Carvalho. Como se lembra o leitor, logo após a posse Lulu deu jeito na sujeira municipal sem licitação ou contrato milionário. Pegou ele mesmo na enxada, no que foi seguido por uma legião de munícipes, em "um enxadar de possessos".

Assim como Lulu, Ralph de Araujo Justino não atravessou o Rubicon.

segunda-feira, abril 21, 2014

[croniquinha de segunda]

Símbolo do desejo

Álvaro Marcos Teles

Levantou-se e foi ao toalete. Deixou o copo de cerveja pela metade. Na volta, surpreendeu o companheiro: com a mão direita sobre o ombro dele, apoiou o corpo. Inclinou-se e, com a esquerda, pôs algo no bolso da calça do rapaz. Sorriu, permeando o mistério. Pegou um Lucky Strike da embalagem bege e azul. Duas, três tragadas. Só fumava quando o grau etílico ultrapassava o limite do tolerável.

Preferiu ficar no bar, mesmo após a conta paga. Puxou a cadeira em outra mesa após despedir-se com beijinhos no rosto. Já em casa, pouco mais de três horas depois, recebeu uma mensagem: “Sua calcinha é linda”. Riu, lembrando da pequena peça azul, rendada e ligeiramente desconfortável – embora extremamente sexy. Não pediu de volta, não sugeriu nada. Apenas imaginou, em silêncio, vesti-la de novo pelas mãos alheias.

No dia seguinte experimentou a ousadia de propor um encontro íntimo, a dois. Tinha de ser especial, com direito a prévias. Compromissos familiares atrapalharam. Ficou a insinuação e o forte tesão de ambas as partes. Já trocaram muitos beijos e até carícias ardentes. Faltava a transa. Os dois pensaram e repensaram muitas vezes como seria. O objeto quase fálico permaneceu, intacto, na mochila dele.

Foi para cima e para baixo, em meio a intimidade de documentos, blocos de anotação, carregador de bateria de celular e uma garrafinha térmica de meio litro. Viajou algumas vezes, visto que uma das tarefas profissionais é exercida em outra cidade. Apesar de tudo, ninguém, além do “presenteado”, viu aquela insinuante, úmida e provocativa lingerie. Trocaram telefonemas, talks e bate-papos pelo Facebook nos dias seguintes.

Sempre uma conversa envolta pelo desejo mútuo, agora já representado materialmente falando. Numa ensolarada manhã de terça-feira, uma proposta surge despretensiosa: ver um filme de humor, já que achavam tanta graça da vida e tinham o que se pode chamar de “riso frouxo”. Na programação, talvez um choppinho e, finalmente, o aguardado momento da devolução. Assim o fizeram no sábado.

Se esbaldaram no cinema, beberam o suficiente para relaxar na praça de alimentação do mesmo shopping onde fica a sala de projeção, e rumaram para um motel próximo. Escolheram a simplicidade como cúmplice. Abriram o quarto, passaram pela salinha de jantar e se trancafiaram na suíte. Ele, calcinha no bolso da bermuda, espera pela companhia, que pediu para ir ao banheiro antes de começarem o que, provavelmente, não tinha hora para acabar.

Percebe o toque do celular deixado sobre o frigobar. Obedece, quando ouve: “pode atender para mim, por favor? Deve até ser engano, meu número é novo”.

Aperta o botão verde.
- Alô, é o Gustavo?

À indagação do outro lado da linha, responde:
- Não, não. Espera aí.

Tampa o telefone e grita:
- Amor, é para você mesmo.

segunda-feira, março 31, 2014

[croniquinha de segunda]

O caminho que segui

Álvaro Marcos Teles

Engoli o Gim. Duas doses. De vez. Minha garrafa, roubada do que sobrou de uma noite de esbórnia entre playboys e patricinhas, fica guardada no armário. Fosse cofre, seria meu tesouro. É também através daquele gargalo que sai minha coragem. Pus o uniforme. Como sempre, a camisa estilo social bege, gola vermelha e preta, de botões. Deixo os três primeiros abertos de propósito, a mostrar parte dos volumosos seios. Uso, quase sempre, sutiã branco bordado meia taça. Adoro provocar e contrasta com a pele negríssima. Já é, tenho consciência, minha profissão instintiva, intuitiva e lucrativa.

Apesar do colo, sei que os olhares vão para outro lugar. A calça marrom estilo secretária, justíssima, deixa minha enorme bunda ainda mais em evidência. Nos dias que me sinto mais quente, ainda ponho um saltinho. Arrumo o cabelo cacheado no espelho, abro o sorriso e mergulho de cabeça no fim de tarde. Sirvo primeiro uma família de prumo tradicional. O homem grisalho senta à cabeceira e parece um Sheik. Todos o aclamam. Dá às ordens. Gesticula. Fala alto. Se impõe, deixam de propósito. É grosseiro comigo. Me trata como empregada, sabendo que não sou.

Depois de atender a um jovem casal de "pombinhos" vou de novo ao banheiro atrás de novo gole. Subo às escadas rapidamente. Sinto um dedo me tocar por entre as pernas. Já preparando o tapa, me surpreendo ao perceber que o autor da provocação foi justamente o coroa imbecil. Ele fala umas merdas, tenta me convencer a transar depois do expediente. Só não quebrei uns dentes do cara por clemência ao emprego. Dedo em riste, me impus. O nariz do branquelo ficou vermelho por fora. E o meu, nervosa que estava, por dentro. Dei duas talagadas, cheirei uma carreira inteira. E voltei como se nada houvesse.

Por volta de onze e meia terminou o expediente. Eu tinha, contados, trinta e seis reais na carteira. Mais os quatorze da passagem, cinquenta. Consegui um bonde até o Centro. Andei uns 800 metros e fui até o restaurante antigo, onde trabalhava no início do ano. Logo na entrada um homem, tipo 40 anos, me abordou. Era cliente contínuo e sentiu minha falta. Primeiro gesto de carinho verdadeiro do dia, mesmo percebendo que ele queria, assim como o babaca anterior, me comer. Esse, por sorte, era educado e sabia tratar uma mulher. Para me desvencilhar, o socorro imediato de uma amiga prestou.

Ela me disse que, ao contrário do que eu imaginava, o almofadinha era gay. Tricô para lá e para cá, escapuli e dei mais um tapa no pó. O celular tocou. Não acreditei ao reconhecer o número de um velho conhecido, que já tinha me ajudado anteriormente. Só disse, ao saber onde eu estava, que usava cavanhaque agora, estaria em um Renault amarelo, e chegaria em 15 minutos. Pontual. Embarquei, cumprimentei-o com dois beijinhos no rosto e partimos. Sem perder tempo, foi direto ao novo Motel da cidade, em uma estrada estadual que vai até o município vizinho.

Confesso que gostei da ousadia. Não foi surpresa. Já tínhamos feito isso antes. Ele me pagava sempre R$ 100. Dessa vez deu R$ 150 por um boquete e uma trepada gostosa, com direito ao cu. Não usou camisinha. E nem eu pedi. Gozou fora, graças a Deus. E ofereceu carona. Ponderei que era longe. Ele argumentou que iria me fazendo carícias. E fez, mesmo. Mãos na coxa, no pescoço... Lambi os dedos dele agradecida e, posso afiançar, honrada. Com as duzentas pratas da féria vou ajudar no tratamento de meu afilhado, Down. Deixei o dinheiro embaixo da garrafa verde de café, na cozinha. Amanhã é outra noite.

quinta-feira, março 27, 2014

[crônicas urgentes]

Um louco no tempo

Felipe Sáles

Tínhamos muito medo do destino de Alexandre. Acho que só ele nada temia, pois afinal, não ligava pra porra nenhuma mesmo: diante de qualquer adversidade, sua reação era debochar e tocar uma guitarra imaginária. Mas simulava de um jeito tão genuinamente ingênuo que a gente chegava a ouvir o riff. O trejeito era repetido até quando a vida desafinava, como na vez em que foi demitido logo após sua mulher engravidar. Alexandre era um dos melhores vendedores de plano de saúde da região, até porque burlava o sistema para que velhinhos comprassem o serviço a preço de criança.

Foi seu primeiro e único emprego na vida, embora na época já fosse formado em Jornalismo e aluno de Publicidade, curso que abandonaria a seis meses do fim. A gente conversava, aconselhava, mas ele nem aí: ria e saía empunhando a guitarrinha imaginária. Naquela época, morava com a mãe, tinha bolsa de estudo e nenhum dinheiro. Trocava a sala de aula pela cantina, e feito cão sem dono, ficava ali à espreita da xepa. Por várias vezes fuxicou a lixeira, sem qualquer constrangimento. A gente dava esporro, ajudava, mas Alexandre, nada: de boca cheia, saía tocando um solo particular.

Conheceu a esposa nessa época. Ela tinha metade da sua altura, mas fora essa diferença, era doidinhazinha como ele. Logo os dois sumiram no mundo, como fazem os apaixonados. “Devem estar num jantar romântico nas esquinas da Pelinca”, a gente brincava. Um dia, os dois ressurgiram na faculdade – flagrados no banheiro, transando. Deu uma merda danada e a diretora ameaçou expulsá-lo. “Tudo bem, eu nem sou mais aluno!”, respondeu antes de mais um solo, com direito à namoradinha no baixo.

Essa mania de guitarra imaginária é uma releitura, eu acho, de “Bill & Ted, dois loucos no tempo” – espécie de exterminador do futuro adolescente, produzido exclusivamente, talvez, para a sessão da tarde. No filme, Bill e Ted são assassinados por clones-robôs do futuro, duelam com a Morte, negociam com Deus e retornam triunfantes para salvar o universo. No fim das contas, foi quase isso que Alexandre fez.

Ao ser demitido, ele saiu pelas ruas feito doido, solando e balançando a cabeça num metal da pesada. Mas logo o telefone tocou. Convocado a se explicar ao dono da empresa, Alexandre viu a chance de redenção com Deus e o mundo. Argumentou que aumentar o número de pacientes foi vantajoso, que não roubara um centavo sequer e que, porra, o preço era extorsivo mesmo. Acabou recontratado – e como gerente. Está lá até hoje.

Fora o carro importado e a mesa farta, Alexandre não mudou nada. Continua casado com a doidinhazinha, e no ano passado tiveram a terceira filha. Tornou-se um paizão, embora inconsequente. Dia desses, seu menino tentou enfiar o dedo na tomada, mas em vez de repreender, ele ponderou: “Filho, se você fizer isso vai levar um choque. Mas é legal pra caramba!”. O moleque se eletrocutou, deu uma gargalhada e dedilhou acordes junto ao pai. Assim Alexandre segue tocando a vida, transformando aquele canto torto numa pueril melodia.


segunda-feira, março 24, 2014

[croniquinha de segunda]

Desbancou a relação

Álvaro Marcos Teles


Gilberto chegou ao banco esbaforido. Um cheque de R$ 2,5 mil não tinha entrado na conta. Faltou identificação do beneficiário. Na maquininha digital, logo após a porta de vidro que separa os caixas eletrônicos do restante da agência, pegou a senha de número 103. Ouviu o chamado da 90 antes de acomodar-se na terceira cadeira da segunda fileira de confortáveis assentos avermelhados. Pensou na hora de voltar ao trabalho o mais rápido possível. O tempo corre rápido.

De repente entra no recinto uma mulata alta, magra, de camiseta preta bordada nas alças e minúsculo short amarelo - desses modernosos, que parecem saia quando vistos de frente. Apreciava através dos estratégicos óculos escuros. O distraiu por alguns instantes. Mesmo o forte ar condicionado não impediu que suasse a testa, reação orgânica característica para refletir a ansiedade. Quando finalmente chegou a vez explicou o caso ao caixa, um simpático rapaz identificado como Everaldo Modesto no crachá.

O bancário ergueu a sobrancelha esquerda e, quando se preparava para roer as unhas, teve o pensamento interrompido por Laiz, e estonteante morena sentada ao lado. Ela indicou o caminho a ser trilhado. Ambos precisavam, contudo, do gerente Teobaldo Américo. O chefe havia saído para almoçar. O identificaram como um homem baixo, calvo, vestido com uma camisa azul listrada de mangas compridas e mochila nas costas. "Ele saiu na mesma hora que o senhor chegou", informou Everaldo.

Foi o homem que tropeçou no pé de Gilberto na porta da agência. "E eu ainda o xinguei de tudo que foi nome", pensou, ao lembrar da reação. Com a previsão de uma hora para o retorno de quem poderia salvá-lo, resolveu esquecer o calor e dar uma volta no quarteirão. Tomou um sunday de morango ao salgado preço de R$ 3,50. Andou quase um quilômetro. Reparou intensa movimentação de carros de polícia. Deu de ombros. Pareceu um alvoroço qualquer, sem sentido, para chamar a atenção e dar a falsa sensação de agilidade.

Retornou antes do previsto. Sentou novamente em uma cadeirinha vermelha, desta vez próxima ao banheiro. Surpreendentemente ouviu um som familiar vindo da direção do sanitário masculino. "Claro que sim. Não tem como esperar. E vai ser hoje", dizia a voz que, segundos depois, Gilberto reconheceu pertencer a um jovem rapaz, barbicha rala, alargadores nas duas orelhas e com o livro "A obstrução programada da Via Láctea" nas mãos. Quase no mesmo instante, recebe um SMS de Teresa, amiga que insiste em dar em cima dele.

Tinha o link www.rondapolicialregional36h.net/noticiasdodia/corpoencontradoemvalao
Clicou e leu logo no primeiro parágrafo: "A moça de 17 anos, desaparecida há uma semana, está mesmo morta. O suspeito de ter cometido o crime é um estudante de astronomia..." Lembrou de não ter visto Amanda, a namorada do vizinho esquisitão, nos últimos dias. Gelou a espinha. Ele parou ao lado de Gilberto, abaixou-se, e balbuciou baixinho, em tom afetadíssimo: "Vou para Londres, fofinho".

terça-feira, março 18, 2014

Muqui prorroga inscrições para festival de TV e Cinema

Da Assessoria do Evento

O Fecin - Festival de TV e Cinema do Interior – realizado em Muqui, sul do Espírito Santo, prorroga as inscrições de curtas-metragens até o dia 15 de abril. As inscrições podem ser feitas pelo site  www.fecin.com.br. Os curtas concorrerão ao troféu Catraca de melhor filme de ficção, melhor animação, melhor documentário, melhor série de TV (ou WebTV),  melhor ator, melhor atriz, e prêmio do júri popular. O Festival acontece de 01 a 07 de setembro deste ano no maior sítio histórico do Espírito Santo. Na última edição, o Festival recebeu mais de 150 filmes entre capixabas, nacionais e internacionais.

Este ano o festival lança a Mostra Catraca, que vai promover uma mostra de filmes na página do Festival. Podem se inscrever filmes finalizados em qualquer ano e que já estejam disponíveis na web. Uma votação online escolherá o melhor filme antes mesmo da data do evento. O vencedor desta categoria, além de levar o troféu catraca, será exibido na noite de premiação na praça da cidade.

O Fecin dedica-se ao diálogo entre TV, Cinema e Internet, espaços em que a produção audiovisual circula e ganha visibilidade. Além do cinema e da TV, o Festival traz uma programação cultural extensa ao sul do Espírito Santo, sempre com opções para crianças, jovens e adultos em ações abertas ao público.  Muqui é conhecida pela beleza arquitetônica, pelas manifestações folclóricas e agora pela arte audiovisual. Com o lema “O que te faz voar?” e o tema “Invenção e imaginação no universo do interior”, o Fecin oferece sete dias de programação gratuita com mostras de filmes, séries e webTVs, oficinas, bate-papo, shows musicais, cortejo poético, olimpíada audiovisual entre escolas, e uma feira de invenções.

Na edição deste ano, o Festival dedica atenção especial à infância, conferindo importância à imaginação para a constituição da identidade da criança e o papel desta como sujeito produtor de cultura. Mas apesar do tema, trabalhos de qualquer temática podem se inscrever para as mostras competitivas de TV e Cinema.

Festival ganha novo nome e roupagem

Em 2014, o “FECIM - Festival de TV e Cinema de Muqui (ES)”, realizado desde 2012 na cidade histórica capixaba, passa a se chamar FECIN - Festival de TV e Cinema do Interior do Espírito Santo. Mesmo realizado em Muqui, o Festival se renova com perspectivas de realizações nos municípios adjacentes do Estado. A proposta, segundo os organizadores do evento, é ampliar as formas de percepção do interior do país, reconhecendo o seu potencial criativo e as inspirações em histórias de seu povo, valorizando sua cultura. Além disso, o objetivo é atrair investimentos federais para iniciativas culturais no Espírito Santo, dando, assim, visibilidade e reconhecimento ainda maior para o interior do Estado. “Queremos fazer um festival cada vez mais próximo também do nosso interior, refletir sobre coisas que mexem com a criatividade do ser humano e tratar de universos próximos da economia criativa”, afirma Léo Alves, diretor do Festival.

Serviço:
Inscrições prorrogadas para o Fecin – Festival de TV e Cinema do Interior do Espírito Santo – Muqui – ES
Formulário de inscrição e regulamento no site do festival: www.fecin.com.br
Informações: contato.fecim@gmail.com.
Fim das inscrições: 15 de abril de 2014.
Data do festival: 01 a 07 de setembro de 2014.
Local: Teatro Neném Paiva, no centro, e Praça Pública Municipal de Muqui.

sexta-feira, março 07, 2014

[crônicas urgentes]

Bolo de Chocolate

João Paulo Arruda

Fica óbvio pra mim que a aventura acabou quando a segunda viatura azul e amarela fecha a BR-101 e sou obrigado a frear. Saio do carro completamente nu, mas não me dou ao trabalho de levantar as mãos. Nem de usá-las pra tapar os ovos. Na verdade, para eterno horror dos bravos agentes, vou caminhando pela linha amarela contínua e aproveito para ultrapassar os limites, todos, do bom senso enquanto requebro e berro: "Kátia Flávia!". Talvez seja aí que tenha acordado o cantor. Ele desce com duas das velas, duas das 39, já acesas, e sorri enquanto lança. O pavio dá o tempo certinho dos canas se abrigarem ao lado da estrada. A dinamite explode o carro do xerife. Os policiais que vinham logo atrás perdem um tempo precioso encagaçados. Eu assumo de novo o volante. O bigodudo de volta ao banco do carona. Ele tem o bigode e a gaita. Mas Burt Reynolds sou eu. Acelero muito para furar a tela do cinema e comer o asfalto, a BR-101 e a distância. Agarra-me se puderes, é o que penso, para não pensar no quiseres.

O bigodudo está no carro comigo por causa do lance do puteiro. Em dado momento da aventura, bateu aquele bom senso e parei à beira da BR. Em Casimiro de Abreu. Pareceu-me um lugar adequado. Não que eu seja poeta. Mas de depressão entendo. E a cidade é uma merda. Logo... Juro que estava desistindo. Mas aí a puta tentou sorrir. E era tão falso o sorriso que me veio Roberto Carlos avisando: não arrisco na banguela. Coração de novo disparado, corri pro carro. Pelado. O bigodudo, que obviamente nao era apenas um cantor, veio junto sem dizer nada e ocupou o banco dele.

Cuidado com a porra do bolo, avisei.

Dez minutos e uma viatura berrando enlouquecidamente atrás da gente depois, ele só comentou distraidamente sobre velas.

Nunca perguntei como ele sabia que era meu aniversário. E a quantidade de velas exata que devia levar. Se ele sabia isso, sabia também que não sei dirigir. E que o bolo, não o carro, era roubado.

Deu-se que mais cedo, naquele dia, entrando na padaria, estava na cabeça o "Feliz aniversário / envelheço na cidade." Mais tristeza do que ira. Aí notei o bolo. De chocolate. Peguei, dobrei a Mendes Tavares correndo, entrei ofegante na Barão de Cotegipe e vi um velhinho sentado na calçada, uma cuia de esmola e uma viola na mão. Ele me deu a chave do Escort azul marinho, agradeceu as moedas e cantou uma música que esperava uma história: "Não pare na pista / é muito cedo pra você se acostumar / Amor não desista..."

Entre uma coisa e outra, meu aniversário indo embora, comecei a cantar "a gente corre / na BR 3 / a gente morre / na BR 3".

E por mais que eu acelerasse, nunca chegaria a Campos em tempo.

O bigodudo gastou todas as velas restantes imitando Tonho da Lua, explodindo a estrada e mantendo os policiais à distância.

Ele também sabe que ninguém corre assim por causa da Rutinha. Mesmo que chegue atrasado.

Já não era mais cinco de março quando entramos. Abandonamos o carro, consegui, de algum jeito, um paletó de linho branco, que em algum lugar do passado, lá em Campos já foi flor. E sentamos à beira do caminho, pra pedir carona, de volta pro Rio.

Pelos olhos dele percebi imediatamente que procurava palavras pra me consolar, sei lá, dizer que a aventura não foi em vão. Que sempre teremos Paris. Pra evitar isso, pedi, logo depois de lembrar que não sabia o nome dele, do bigodudo:

Toque outra vez, Sam!

Quero a sessão de cinema das cinco, pra beijar a menina e levar a saudade, na camisa toda suja de batom...

domingo, fevereiro 23, 2014

Vai ter Copa


Empolgar-se com os gritos de “não vai ter Copa” é o que fazem os ativistas de poltrona, os revolucionários do Facebook. Compartilhar a coragem dos manifestantes enfrentando bombas de gás em São Paulo e Rio de Janeiro é o que há. Mas não se engane: vai ter Copa e nada do que você fizer agora vai mudar isso. E ainda tem mais: você vai dar uma olhadinha na final da competição transmitida pela TV Globo. Vai reclamar do Galvão Bueno e chamar Neymar de pipoqueiro. Se o Brasil perder você vai culpar a CBF, a farra com o dinheiro público e/ou a burrice de Felipão. Se o Brasil ganhar vai dizer que a Copa foi comprada, e que essa competição era um jogo de cartas marcadas.
O momento de gritar “Não vai ter Copa” era entre 2009 e 2010, quando o Brasil se candidatou. Mas naquela época, ninguém estava preocupado com isso, o tal gigante ainda dormia em berço esplêndido. Naquele momento, quando a CBF e o Governo Federal se encontravam para traçar os planos para 2014, era o momento de sair às ruas e dizer: “Não queremos Copa! Já conhecemos vocês políticos! Sabemos que vão superfaturar tudo! Nós queremos hospitais, escolas e estradas!”. Mas eu não me lembro de ninguém nas ruas naquele ano.
Naquela época, alguns políticos, sociólogos e jornalistas já previam: a Copa vai ser superfaturada. Todos sabiam disso, era claro como água. Até os pinguços na mesa de bar já falavam sobre isso, mas onde estava o pessoal do “Não vai ter Copa”? Muito provavelmente, estavam elegendo os mesmos políticos que agora estão superfaturando a Copa do Mundo no Brasil. Quando vejo aquela multidão nas ruas do Rio de Janeiro, protestando, quebrando e se indignando, fico me perguntando como pode Eduardo Paes ter sido eleito no primeiro turno? Quem afinal de contas colocou Sérgio Cabral no poder? Aposto que você não votou nele. Nem eu. Então como diabos ele ganhou a eleição? Quem elegeu Bolsonaro? Quem elegeu Marco Feliciano? Onde a turma do “Não vai ter Copa” estava quando a gente mais precisou dela?
Não sou contra os protestos, nem poderia, minha história de vida não me permitiria isso. Não sou contra Black Blocks, Cabruncos, Anonimous ou qualquer outra força que se levante contra as mazelas que nos são impostas pelo opressor. Se o governo entender que estamos acomodados, ou os obedecemos como ovelhas, vão continuar tripudiando e superfaturando Copas, Olimpíadas e o que mais eles encontrarem pela frente. Sair do estado de letargia em que nos encontrávamos foi incrivelmente excitante, mas nos perdemos no meio da multidão. Perdemos a direção. Gritamos para todos os lados e ninguém ouve. Falta coragem, liderança e um posicionamento claro, definido. Sem isso, vão continuar gritando “não vai ter Copa” para ouvidos surdos.
Na Ucrânia, milhares de pessoas marcharam em direção ao parlamento e exigiram a retirada do presidente. E ontem à noite eles conseguiram. Não se enganem: os partidos de oposição estavam à frente, sempre estiveram e sempre vão estar. É assim em qualquer república que se preze. Inclusive no Brasil. Acreditar, por exemplo, que os caras pintadas tiraram o Collor do poder é ser ingênuo ao quadrado. O impeachment de Collor foi um trabalho de coalizão de partidos de oposição com movimentos sociais e sindicais sérios que explodiu na marcha dos caras pintadas. Outra vez, os partidos de oposição, movimentos sindicais e movimentos sociais estavam à frente. A vontade popular estava ali representada, mas não sem um direcionamento.
No exército existe um treinamento de recrutas chamado “Ordem Unida Sem Comando”. Todos sabem o que fazer e não precisa de um líder, não precisa de um comandante. E eles andam, andam e não saem do lugar. Gritam, gesticulam, fazem um barulho enorme e no final estão no mesmo lugar. As manifestações andam em círculos, faltam cérebros, sobram músculos. Por outro lado, as manifestações reverberam a vontade popular e conseguem nos mostrar pontos que até então estavam obscuros, casos que antes passariam despercebidos. Amarildo, Museu do Índio, entre outros casos que antes não teriam força para aparecer no Jornal Nacional. Mas ainda é pouco, muito pouco.
Também está claro que muita coisa que acontece nas manifestações não nos chega de forma correta, é como um telefone sem fio. Os movimentos sociais envolvidos às vezes são abafados pelos gritos de meia dúzia de baderneiros ou são suprimidos na edição do Jornal Nacional. O mesmo noticiário que gasta cinco minutos com um tiozinho que teve seu fusca incendiado, mas não gasta dez segundos para entrevistar ativistas que têm algo a dizer dentro e fora das manifestações. Não dá pra acreditar que é apenas bandalha, porque não é. Mas a mídia corporativa tem sido mais inteligente do que os manifestantes, que acabam se transformando em vilões, como em 60/70. A história não pode se repetir. Precisamos ser mais inteligentes, precisamos ser mais incisivos e parar de andar em círculos. Eles não entram em campo pra perder, são os donos da bola, subornaram o árbitro e ainda são os donos do campo. Nós só temos a torcida a nosso favor, então é hora de jogar com inteligência e parar de perder para quem é menos talentoso com "a bola nos pés". E finalmente, parafraseando Malcolm X, “se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.
Vai ter Copa, e entenda de uma vez por todas que não é força, é jeito.

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

[crônicas urgentes]

Pronta para o prazer

Álvaro Marcos Teles

Um pequeno contratempo na calça jeans clara, recém adquirida, quase fez Lourdes perder a hora. Mesmo com a temperatura relativamente baixa, o jeito foi apelar para o vestido justo floral, palmo e meio acima dos joelhos, zíper nas costas. Mal deu para se ajeitar, borrifar uma "misturinha mágica" no cabelo, passar glitter azul e preto no entorno dos olhos, pôr a apertada sandália bege, pendurar a bolsinha preta e partir. Chegou esbaforida no ponto, ainda a tempo de ser uma das últimas passageiras a embarcar no ônibus.

Não ligou para os olhares atravessados de toda ordem. As mulheres mais velhas a fuzilavam, misto de decoro e inveja. Os rapazes, era visível, imaginavam despi-la. Até o trocador e, depois, o motorista, apreciaram partes das coxas e, principalmente, sua exuberante bunda. Os quarenta minutos dentro do coletivo pareciam uma eternidade. Por volta das oito da noite Rogério a esperava no lugar marcado, espécie de refúgio dos dois: um quiosque encravado numa ruela entre duas das avenidas mais movimentadas da cidade.

O avistou logo na esquina, onde crianças se divertiam com brinquedos de madeira. Para ela, fogosa, encontrar o amante também era uma espécie de playground. Ignorava até que achassem errado deixar a filha de quatro anos com a mãe, uma evangélica que perdia os cultos noturnos das terças-feiras toda vez que tomava conta da criança. Pecado, no dicionário de Lourdes, era sinônimo de não encontrar o macho. Sorridente, se aproximou. E com o rebolado característico, de entortar qualquer pescoço masculino que cruzasse o caminho.

Ele estava como de costume: traje social, cheiroso e já degustando uma cerveja. Rogério cortejava até a si mesmo, parecia. Levantou, puxou a cadeira, como à moda antiga, a viu sentar e, então, chamou o garçom. Pediu só um copo, mostrando o dele. Ela não perdeu tempo e tascou um beijo que molhou a área compreendida entre a bochecha e o pescoço do rapaz. Virou-se e, ato contínuo, pôs as enormes unhas pintadas de vinho sobre a coxa dele. Era o sinal insinuante, a provocação, o exibicionismo gratuito, o fogo ardente.

Alguns cães trançaram as mesas em busca dos restos de comida no chão. Uma cachorra, prenha, branca e marrom, chamou a atenção. Frágil e obstinada, ao mesmo tempo. Lourdes se identificou. Literalmente. Pensou ser, ali, naquele instante, também uma cadela, só que no cio. Rogério cumprimentou um casal conhecido. O cara, gordinho bonachão, descobriu a tatuagem dela no tornozelo. A mulher, simpática e educada, adotou maior discrição. Lourdes, em chamas, já roçava o joelho, já mordia o lábio internamente, como os que muito desejam.

Poucas palavras, algumas ao pé do ouvido, bastaram. Veio a conta, e uma sensação de que, naquela noite, algo poderia ser diferente. Claro que a companhia de Rogério era puro deleite. Só que novembro, pertinho do verão, pedia um ineditismo. Ela ficou sem jeito. Afinal, já haviam experimentado de quase tudo. O quase fica para práticas sadomasoquistas, vontade de Rogério, escorregões sempre milimetricamente calculados dela. Embebedou-se de coragem, respirou fundo, suspendeu as sobrancelhas, e tascou o pedido: "Amor, me leva no China In Box?".

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Por uma Fundação Monitor Campista

Os jornais impressos vão morrer. Mas o Monitor Campista não deveria ter morrido. E justamente em razão da morte anunciada deste tipo de mídia.

Quando, em 2009, o Monitor fechou as suas portas, lamentou-se a perda da circulação de uma alternativa de informação, a perda da condição de cidade sede do terceiro mais antigo jornal do país, e a perda da fonte de sustento para dezenas de trabalhadores.

Mas havia mais que isso. Perdemos uma oportunidade de termos, no futuro, um bem cada vez mais raro, algo que o município poderia ter escolhido preservar vivo para conservar um laço concreto com o passado, como quem preserva uma antiga igreja, um antigo solar.

Pode parecer exagero, mas via o Monitor Campista, daqui a 50 ou 100 anos, até mesmo como atração turística (como, a propósito, deveria ser Ao Livro Verde), sem prejuízo do seu potencial como empreendimento viável financeiramente.

Imagine, em um cenário onde há cada vez menos impressos, uma cidade ter para mostrar um jornal de mais de 200 anos, ainda em circulação, como teríamos daqui a pouco mais de 25 anos (o Monitor foi assassinado aos 175 anos!). O modo de fazer um impresso, as rotativas funcionando, a circulação, o próprio produto, tudo isso será muito curioso daqui a cem anos. É algo como ver a prensa de Gutenberg funcionando hoje.

Evidentemente esta não seria a única função do jornal. Todas as demais plataformas de leitura deveriam ser desenvolvidas (como vinham sendo), como qualquer outro veículo, e a sua missão de produtor diário de informação, naturalmente, deveria ser mantida.

Todos poderíamos acessá-lo em nossos celulares, ou nos óculos do google, o que mais aparecer, mas haveria, para orgulho caprichoso da cidade, uma pequena tiragem impressa para assinantes admiradores da publicação, para órgãos públicos, para os turistas.

Agora, quando discutimos os meios de trazer de volta o acervo do Monitor Campista para a cidade, insisto que não devemos pensar no seu legado como algo morto, que encerraremos em uma sala do Arquivo Público Municipal. É claro que a vinda do acervo será um passo importante, e espero mesmo que consigamos, mas não podemos ficar apenas nele.

O futuro que sonho para o jornal é o retorno da sua publicação, editado por uma Fundação Monitor Campista, que conserve o seu acervo, viabilize o acesso de pesquisadores e turistas, seja um centro de preservação da memória da imprensa local, e consiga demonstrar que a força histórica do Monitor conseguiu ser maior do que a omissão de uma geração que permitiu a sua “descontinuidade” em um remoto 2009.

sábado, fevereiro 01, 2014

Adão e Eva

[crônicas urgentes]

Adão e Eva

João Arruda

Deus não criou Adão e Adão. Porque é assim que está escrito. É o certo, o sagrado, o natural. Tudo vem de Adão, do homem.

Uma costela de Adão foi tirada para que existisse a mulher.

Meio quadril de Adão foi tirado para que existisse o veado. É por isso que até hoje tem aquele negócio de andar como homem e andar como veado. Cada um manca pra um lado.

E a sapatão? O que Deus tirou de Adão pra criar a sapatão?

Um par de all star de cano longo.

Mas Sodoma e Gomorra...

Foram destruídas porque eram cafonérrimas. Foi justamente no Gomorra Fashion Week. Lot ficou hor-ro-ri-za-do com o mau gosto, o comportamento licencioso e levantou pra ir embora na hora. A mulher dele teimou em olhar pra trás, deu aquela quebradinha Gisele Bundchen e virou uma estátua de sal na hora...

Que punição severa...

A alternativa era desfilar por toda a eternidade no Osasco Fashion.

É claro que houve um velho testamento inteiro de debates antes da decisão de formar uma família e tornar a santíssima uma trindade.

Mas pense o que vão dizer na escola. Você vai ser o pai, ele vai ser o filho. E eu? Eu vou ser o quê?
O Espírito Santo.

Claro que o fanatismo azedou a ceia. A criança acabou sendo adotada. Por sorte ficou sendo filha de um casal maravilhoso. E duas mil crianças morrem toda hora até hoje porque Herodes era presidente da Comissão de Direitos Humanos da Judeia.

E Salomé bota um terninho, uma peruca loura e vai apresentar telejornal homofóbico. Dá vontade de postar: faz a dança dos sete véus aí, sua filha da puta!

Por muito menos que isso ela pediu a cabeça do João Batista.

Então, vamos mudar de assunto. Vocês viram que coisa linda o Félix?

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Inscrições abertas para pós em Jornalismo Literário

Está no ar o portal do jornalista e professor Edvaldo Pereira Lima, um dos fundadores da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em www.edvaldopereiralima.com.br. Os interessados podem obter informações sobre os cursos e oficinas ministrados e sobre as inscrições para as turmas de pós em jornalismo literário para 2014, em São Paulo e Curitiba.

domingo, janeiro 26, 2014

[croniquinha de segunda]

Nunca se sabe

Vitor Menezes

Ela notou a aproximação quando já contava com motivos suficientes para estar com medo. Arrastava pela calçada uma mala preta e em tudo se parecia com uma turista, o que de fato era. Descera na pequena rodoviária central da cidade e caminhava por uma rua mal iluminada na direção que, acreditava, a levaria à casa de uma amiga. E fora esta quem havia lhe garantido:

- Pode vir tranquila. Moro a duas quadras da rodoviária. Você desce, passa o hospital, e entra à direita. É a segunda casa à esquerda, a do portão marrom.

O homem alto, de calça jeans, jaqueta escura e boné preto a viu justamente quando ela passava pelo trecho mais escuro da rua. Notou logo que não era da cidade. Não apenas a mala, mas a roupa pouco usual no lugar e o chapéu que só vira igual na televisão formaram o imediato diagnóstico de que se tratava de uma vulnerável forasteira.

Ela aumentou o ritmo das passadas. As rodinhas da mala trepidavam com bravura pelas ranhuras do calçamento, produzindo um atrito nervoso que só fazia elevar a tensão da visitante. Os músculos estavam contraídos pelo esforço físico e pelo pânico que começava a lhe assaltar. A mão direita puxava a bagagem. A mão esquerda pressionava a alça da bolsa sobre o peito. A certo ponto nem mais andava. Parecia correr. Mas o homem a mantinha a uma pequena distância. 

Eram apenas trezentos ou, quem sabe, quatrocentos metros, se tanto, nesta parte menos iluminada do trajeto. Mas pareciam quilômetros. E o vento que sacudia as folhagens das árvores robustas não contribuía em nada para acalmá-la.

Pensou no arrependimento de ter vindo, na inutilidade de estar passando por aquilo, na possibilidade de que estivesse por vir algo mais violento que um mero assalto, e no filho que não mais veria se estivesse escrito que seria ali o lugar da sua morte. 

Chegou finalmente à esquina e experimentou algum alívio ao constatar que a rua da amiga era mais iluminada, tinha menos árvores e dali mesmo era possível avistar o portão marrom à esquerda. Avaliou que certamente fora isso que fizera com que o homem desistisse de segui-la assim que dobrara no cruzamento.

E ele retornou para o ponto de onde havia saído, no bar ao lado do hospital, para acompanhar de longe os passos daquela turista e garantir que nenhum mal lhe acontecesse. O lugar é muito tranquilo, mas nunca se sabe.

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