domingo, janeiro 26, 2014

[croniquinha de segunda]

Nunca se sabe

Vitor Menezes

Ela notou a aproximação quando já contava com motivos suficientes para estar com medo. Arrastava pela calçada uma mala preta e em tudo se parecia com uma turista, o que de fato era. Descera na pequena rodoviária central da cidade e caminhava por uma rua mal iluminada na direção que, acreditava, a levaria à casa de uma amiga. E fora esta quem havia lhe garantido:

- Pode vir tranquila. Moro a duas quadras da rodoviária. Você desce, passa o hospital, e entra à direita. É a segunda casa à esquerda, a do portão marrom.

O homem alto, de calça jeans, jaqueta escura e boné preto a viu justamente quando ela passava pelo trecho mais escuro da rua. Notou logo que não era da cidade. Não apenas a mala, mas a roupa pouco usual no lugar e o chapéu que só vira igual na televisão formaram o imediato diagnóstico de que se tratava de uma vulnerável forasteira.

Ela aumentou o ritmo das passadas. As rodinhas da mala trepidavam com bravura pelas ranhuras do calçamento, produzindo um atrito nervoso que só fazia elevar a tensão da visitante. Os músculos estavam contraídos pelo esforço físico e pelo pânico que começava a lhe assaltar. A mão direita puxava a bagagem. A mão esquerda pressionava a alça da bolsa sobre o peito. A certo ponto nem mais andava. Parecia correr. Mas o homem a mantinha a uma pequena distância. 

Eram apenas trezentos ou, quem sabe, quatrocentos metros, se tanto, nesta parte menos iluminada do trajeto. Mas pareciam quilômetros. E o vento que sacudia as folhagens das árvores robustas não contribuía em nada para acalmá-la.

Pensou no arrependimento de ter vindo, na inutilidade de estar passando por aquilo, na possibilidade de que estivesse por vir algo mais violento que um mero assalto, e no filho que não mais veria se estivesse escrito que seria ali o lugar da sua morte. 

Chegou finalmente à esquina e experimentou algum alívio ao constatar que a rua da amiga era mais iluminada, tinha menos árvores e dali mesmo era possível avistar o portão marrom à esquerda. Avaliou que certamente fora isso que fizera com que o homem desistisse de segui-la assim que dobrara no cruzamento.

E ele retornou para o ponto de onde havia saído, no bar ao lado do hospital, para acompanhar de longe os passos daquela turista e garantir que nenhum mal lhe acontecesse. O lugar é muito tranquilo, mas nunca se sabe.

5 comentários:

walnize carvalho disse...

Excelente,como sempre!

Vitor Menezes disse...

Brigadão, Walnize! Você, sempre dando aquela força! Grande abraço!

Marcio.G disse...

Favor convidar para o lançamento do livro.

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

Puxa.... é isso mesmo... julgamos muito...
Gostei!

Álvaro Marcos Teles disse...

Dono de voz inconfundível, o homem misterioso é um conhecido locutor das madrugadas na rádio local. Último marido da filha do dono do bar - deficiente visual e ex-prefeito - se relacionou com a anfitriã recentemente. E é por quem a hóspede vai se apaixonar.

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