domingo, junho 07, 2009

O Canal Campos-Macaé deve ser coberto?

O Canal Campos-Macaé, depois de representação ao Ministério Público feita em 2000 pelo ambientalista Aristides Soffiati, escapou de ser mais um pedaço da história de Campos varrido para debaixo dos discutíveis projetos quiosqueiros que assolaram o município a partir dos anos 90.

Tombado provisoriamente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 2002, a obra histórica do século XIX volta a provocar debate sobre a conveniência ou não da sua cobertura, o que sempre cresce na medida direta do seu abandono.

Nos blogs, o tema voltou a ser discutido após o publicitário Gustavo Oviedo ter incluído a construção de um parque no local entre as suas sugestões para a cidade. “Para preservar e admirar a importância histórica do canal Campos-Macaé, tem de sobra depois do McDonalds”, defendeu Oviedo.

O poeta Artur Gomes também colocou lenha na discussão em comentário no urgente!: “Acho sinceramente que o Canal já era. Assim como muitas outras coisitas em nossa goyta city, minha musa corrompida. O Canal Campos-Macaé hoje, como tantos outros, é um esgoto a céu aberto. Que autoridade estadual, municipal ou federal, nesses últimos 50 anos, desde quando me entendo como gente, tomou alguma atitude com relação a esta coisa vergonhosa?”.

Outros, como o publicitário Sérgio Provisano e o fotógrafo Wellington Cordeiro, defendem a revitalização do Canal, com sua limpeza e reconstituição histórica. “O que se deve fazer é retirar a cobertura feita no trecho em que ele está coberto e refazer o projeto paisagístico original. Não há nenhum mistério nisso. Acabar com o despejo de esgoto in natura no valão é uma atitude a ser cobrada da empresa responsável pelo tratamento de esgoto da área central da cidade. Afinal, ela fatura muito e tem que solucionar essa questão”, disse Provisano.

“Então o que não tem mais jeito deve ser enterrado? Haja túmulo para tanto defunto. Não podemos esquecer da importância histórica do canal, aberto pelos braços dos escravos. Há de ter alguém para desenvolver um projeto urbanístico que torne o canal não como era, não seria necessário, mas com um mínimo de tratamento que o torne agradável para a população”, opinou Cordeiro.

A julgar pela praticamente inexistente política de preservação histórica no município, e pelo desleixo com que os sucessivos garotinhos trataram o assunto ao longo das últimas décadas, se o movimento pela cobertura do Canal ganhar um pouco mais de densidade não será difícil que a prefeita Rosinha decida encampá-lo.

E você, leitor, qual a sua opinião?

[Artigo publicado hoje no Monitor Campista]

31 comentários:

Marcelo Bessa Cabral disse...

Na minha opinião Gustavo Oviedo e Artur Gomes têm razão.
E outra: aquilo não é um canal e sim um valão. Todo mundo sabe disso. Esgoto a céu aberto. Tenho quase 38 anos e desde criancinha aquele lugar sempre foi um valão.
Sejamos práticos: o valão vai até Macaé. Que mal fará tapar a parte que atravanca o trânsito da cidade?
Que adianta preservar aquilo se o resto do "canal" vive assoreado? Não estamos falando do Rio Tâmisa, em Londres, nem da Inglaterra.
O valão só tem importância dentro da cidade? Só foi construído pelos escravos na parte que fica no centro, por um acaso? Só é tombado no trecho que atravessa a cidade?
Nunca foi e nunca será conservado, gente! Não falo de governos, claro: falo de fatos.
O Jardim de Alá (onde hoje está o Parque Alberto Sampaio) era muito mais bonito e foi coberto. Que mal fará à cultura e à história da cidade taparmos o resto do valão, pelo menos até o McDonalds?
A cidade pode ganhar mais duas pistas em cada sentido e uma ciclovia (ou estacionamento) no espaço hoje ocupado por aquela vala horrorosa (ou alguém acha aquilo bonito?).
Será que os engarrafamentos na Beira-Valão (Beira-Canal?) são bons para a cidade?
Amo esta cidade e por isso detesto aquele valão que só nos envergonha.
Fora de Campos a referência à cidade é "aquela que tem um valão bem no centro" (era o índio, mas graças a Deus ele jaz e algum lugar da Baixada!!!).
Quem tem olhos que veja.
Um abraço a todos.

Marcos Valerio disse...

Concordo em parte com o Marcelo e voto a favor da cobertura ou envelopamento do canal ou valão, só gostaria que fosse em todo o perímetro urbano. Sejamos realistas se o problema não foi resolvido até hoje, e olha que tenho 46 anos e também não me lembro de ter visto o valão limpo desde sempre... Não creio que essa modificação no canal/valão faça muita diferenaça no aspecto ecológico, mas com derteza vai melhorar muito estéticamente o corredor principal de nossa Cidade.

Anônimo disse...

Acontece que o canal campos-macaé é tombado, patrimônio histórico, portanto é proibido por lei cobri-lo.

Marcelo Bessa Cabral disse...

Tombamentos podem ser cancelados.
Isso não é muito usual no Direito Administrativo, mas é possível, sim.
E é legal, estando previsto no parágrafo 2º do art. 19 do Decreto-Lei nº 25, de 30/11/1937.
Se a cidade quiser tapar o Valão, o tombamento não será problema...
Abraço a todos do Urgente.

Anônimo disse...

Tombado ou não pelo patrimônio histórico, seria excelente se as autoridades entendessem a necessidade e permitissem a cobertura do canal. Em nenhuma instância entende-se que se trata de um canal e sim, valão como depósito de detritos e outras coisas mais.Há ainda os que descobriram como esconderijos para uso de drogas.

Débora da Vitória de Jesus. disse...

Canal é instrumento de levar e trazer. Este valão é instrumento de reter. Reter sujeira. Reter mal-cheiro. Reter história triste. Reter tombos ( Um carro "num tombou" lá dentro?).Reter a paciência do Campista. E eu tenho 56 anos e só entendo aquele valão como referência: "Ali... na Beira Valão...- Ah... beira valão? Em que altura?. Na Beira Valão...

Vamos tapar isso, gente! Tanta idéia legal por aqui...
Vamos "tombar" logo... essa Beira Valão. E não só a beira mas o Valão inteiro, por favor!

Rodrigo Rosselini disse...

Não conhecia essa conceituação "canal", "valão"... Canal significa limpo e valão significa esgoto a céu aberto? Não conhecia. Bom, acho que a construção do Alberto Sampaio e do viaduto deram o tom da questão. eu também não quero a cobertura do canal Campos-Macaé, assim também como não queria a demolição de um casarão sequer, desta cidade que já foi. Estas obras nos mostram que nem sempre vivemos nesta merda, que houve um período em que vivemos uma riqueza que eu não saberia dizer se foi maior ou menor que a que existe hoje, mas que colocava a cidade no cenário nacional, num mais elevado nível político, pelo menos. Hoje, nós na casa dos 30 e 40 estamos insatisfeitos com a memória que temos no canal, argumentando sua importância histórica (se bem que atribuir seu valor ao fato de ter sido construído por escravos pode não ser algo qualitativo... não sei se os escravos se orgulhariam do sofrimento que deve ter sido esse trabalho, não eram cidadãos e provavelmente havia nada de patriótico neste trabalho... isso são construções da nossa cabeça...), mas também penso no esquecimento que isso pode trazer. Excetuando os que moram lá, o campista não conhece a cidade depois do Mc Donalds. Ou seja, as gerações após os nossos filhos não saberão de valão, de canal, de escravidão, do comércio campista, etc, etc... e assim vamos construindo uma cidade sem memória...
minha opinião: não sei.

Débora da Vitória de Jesus. disse...

Eu disse que canal significa levar, conduzir... Valão parece coisa parada que retem. Não falei limpo ou sujo. Um canal pode ser sujo também dependendo do que ele conduz...

Até a gente pode ser um canal. UM canal de conduzir coisas boas ou ruins.
Eu sei que muita gente vê a vida acima do bem e do mal. Do limpo e do sujo, mas na hora dos seus julgamentos dizem que o sujo é limpo e o limpo é sujo.E querem ver tudo limpo e certo. É interesasnte que esses mesmos são o que mais cobram cobram o correto o bem o certo... Não perdoam de jeito nenhum... Nâo é interessante? Tenho pensado muito sobre isso. Essa coisa de natureza humana... de contestar... contestar... contestar...
Importa contestar.

Ah... você fala em esquecimento. Duvido muito que 50% da população saiba da história deste valão... esquecer o que nunca soube?
O que a gente precisa nesta terra e tratar bem uns aos outros com dignidade, Parece que a gente não quer esquecer que os escravos foram escravos! E na verdade, para quê ficar lembrando isso? Eles evoluiram... e este canal já passou. Virou valão. Uma vala cortando a cidade...
Se a gente for mesmo levar ao pé da letra este negócio de HIstória, vamos acabar é em Adão. Mas eu prefiro parar ali em Jesus- que libertou os escravos, pobres, crianças e mulheres.

Maria disse...

Ainda não cheguei na casa dos 30, porém reconheço que o ato de esquecer (enquanto memória social) não requer que nossa geração saiba, significa exatamente que a camada detentora do poder não trata daquele assunto como relevante para a história daquela sociedade. Percebe-se em Campos que o indio e o negro são renegados em contrapartida ao senhor de engenho. Outra coisa: vai "des-tombar" o canal como fizeram com o prédio da Sta. Casa tombado, com a desculpa de construir outro melhor, e ficamos com um estacionamento até hoje. Sinto perceber que o feio aos olhos não tenha sua importância na formação do campista rememorada, mas engavetada. Dessa forma, permitimos aos nossos governantes (em qualquer época) perpetuar seu discurso do que nos representa sem pensarmos nós mesmos, e sem reclamarmos ações do governo ou das agências que cuidam de nossa água e esgoto.

Provisano disse...

Mandei ontem um comentário para esse tópico, que deve ter se perdido nas estradas virtuais da vida.

Nesse comentário, discordei, com todo o respeito, da opinião do Marcelo. Disse também ter expressado minha discordância no blog dele e para minha surpresa, meu comentário enviado para lá, tambpem se perdeu nos tortuosos caminhos da internet.

Minha discordância se dá no sentido de que acho inadmissível, apagarmos um fato histórico só pelo fato de que algumas pessoas, num pragmatismo equivocado, acham melhor esconder a sujeira par baixo do tapete, simplesmente cobrindo o trecho do canal Campos/Macaé.

Meus argumentos foram expressos no blog Urgente e não há necessidade de ficar repetindo, o que não podemos é fazer vista grossa ao fato de que a abertura do canal foi feita através da exploração do trabalho escravo e o que documenta isso, ao vivo e à cores é o próprio canal, está ali, na nossa cara, é História, faz parte da memória de nossa cidade, mesmo se escondermos, continuará fazendo parte.

Um destombamento de uma obra de engenharia como essa, não é tão simples como destombar uma árvore, por exemplo.

Gustavo Alejandro Oviedo disse...

Sergio, com tudo o respeito aos escravos, aos que idealizaram a obra e a história campista: estamos falando de uma vala, de um buraco muito comprido, que na sua parte urbana já foi coberto parcialmente (Pqe. Alb. Sampaio, como lembra Marcelo Bessa)e a outra parte foi também coberta por cimento mas mantendo sua inclinação (e isto não foi feito pelos escravos). Que obra de engenharia é essa? Que história está sendo lembrada hoje em dia, da forma como o Canal se encontra?

Sou tão defensor do patrimônio cultural e histórico da cidade como qualquer um de vocês. Mas vamos falar serio: ou o valão é coberto melhorando o trânsito e criando um longo espaço central de área verde e lazer, ou vai ficar essa porcaria como está agora para sempre.

Sérgio Provisano disse...

Caro Gustavo, de cara emcampei sua idéia de um grande calçadão e mais, acho até que fostes tímido na delimitação geográfica, ampliaria ainda mais a sua proposta que é para lá de viável.

O que defendo é uma revitalização do canal, que se pare de jogar esgoto in natura por exemplo. Voltar para o paisagismo original é outra ação perfeitamente factível.

Defendo uma cidade onde o espaço para o pedestre, seja a prioridade e não o espaço para automóveis. O poder público deve investir na qualidade e ampliaçãi dos transportes de massa, com metrôs, veículos leves sobre trilho, os VLTs, e muito, mas muito espaço para o pedestres, sem calçadas irregulares, enfim espaço para se andar, sem poluição causada pelos escapamentos dos veículos.

Isso sim é modernidade. Quanto à obra de engenharia a qual me referi, é o próprio canal em si e não as intervenções feitas a posteriori. Só à título de informação, a abertura do canal, acabou por exemplo, por diminuir a importância das atividades portuárias em São João da Barra, à época de sua abertura.

O canal está abandonado há quase vinte anos mas, não é desculpa, o que o poder público tem que fazer é revitalizá-lo, recuperar suas características originais, demolir o que hoje são ruínas que só servem para degradar esse espaço central da cidade.

Forte abraço Gustavo e parabéns ao Urgente por postar um tópico que está trazendo opiniões realmente enriquecedoras como as do Marcelo Bessa, do Marco Valerio, da Maria, do Rodrigo Rosselini, ao mundo da blogosfera que venhamos e convenhamos, estava meio devagar quase parando. Aí, vem o Vitor Menezes e saca um coelho da cartola e anima a festa.

Wellington Cordeiro disse...

Acho que se o Gustavo fosse tão defensor do patrimônio histórico, deveria ao invés que gritar pelo sepultamento do canal, que ele recebesse um tratamento digno. Seria uma boa hora para uma campanha ampla de respeito e restauração do patrimônio público. Todos poderiam conhecer o trecho do Canal que passa pelo município de Quissamã, ao lado do Museu Casa Quissamã, que é navegável e que brevemente fará parte de um circuito turístico. Para quem não sabe, o canal foi feito por intermédio do Visconde de Araruama e interliga suas fazendas. Liga por exemplo a sede urbana do Visconde (atual Museu de Campos) e sua sede rural, o Museu Casa Quissamã. Com isso podemos entender a política de patrimônio Histórico dos dois município em questão. Enquando só agora o Museu de Campos está passando por reformas, sem prazo de término, o Museu Casa Quissamã estará comemorando no dia 12 de junho, 3 anos de atividades. Neste caso o trato com o Canal é o mesmo, em Quissamã o esgoto é tratado e o Canal não recebe nem um vestígio de esgoto. Por que que em Campos é diferente?
Como seria bacana se o turismo local pudesse ter a opção de uma viagem de barco pelo canal, que no seu trajeto do curso d'água de 109 km começa em Campos, passa pela Lagoa Feia, Quissamã, Carapebus e corta o Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba até chegar a Macaé. Seria impossível? Acho impossível a população de Campos ficar inerte diante deste desrespeito e descaso com a história, mas também com o progresso, já que esta obra seria vital para o desenvolvimento turístico da região e , por consequencia, melhoria da qualidade de vida da população e da alta estima das pessoas.

Vitor Menezes disse...

A conversa está mesmo boa, de ótimo nível. E volto aqui para reafirmar minha opinião: deve-se restaurar o canal, inclusive na parte que foi coberta por aquele monstrengo que se tornou o Alberto Sampaio e sob aquele mostro ainda maior que é a ponte Rosinha. E uma idéia não anula a outra: canais podem muito bem conviver com parques e áreas arborizadas (ou será que é obrigatório que vire estacionamento ou pista para carros?). Parque qualquer cidade pode ter, e nós precisamos de muitos e temos muitas áreas para isso. Uma das maiores obras de engenharia do império, ao contrário, é privilégio para poucas cidades. Se Campos fosse minimamente zelosa com o seu patrimônio histórico, o canal seria local de orgulho e de visitação.

George Gomes Coutinho disse...

Estou com os colegas que apoiam a revitalização paisagística do canal Campos-Macaé. Eis o verdadeiro nome do que tornou-se "valão". Tampá-lo irá criar somente a potencialização das zoonoses já existentes. E digo isso porque eu moro na Rua Visconde de Itaboraí, muito próximo do canal.

Me causa espécie saber que os habitantes locais tenham tamanho desprezo por algo que seria motivo de orgulho e exploração sustentável e turística em qualquer lugar civilizado do mundo.

Ah.. sim.. é fato.. estamos em Campos, tinha me esquecido!

Sérgio Provisano disse...

Discutir em nível alto é tudo de bom e o Urgente está proporcionando esse prazer inenarrável. Terminando a rasgação de seda, por sinal mais do que justa, vamos ao que interessa:

Cobrir ou não cobrir o canal Campos/Macaé que alguns, equivocadamente, chamam, pejorativamente de valão?

Minha posição todos já sabem, sou contra a cobertura e as razões já são públicas, não cabe ficar repetindo, repetir é chover no molhado e também, o Wellington Cordeiro deu uma pequena aula de História para dirimir toda e qualquer dúvida que se pudesse ter a respeito do valor histórico do canal.

Vejo que estou na luxuosa companhia de Wellington Cordeiro, do Vitor Menezes, do Rodrigo Rosselini e de muito mais gente que como nós, entende a importância da preservação da memória de nossa cidade.

O Marcelo faz o seguinte questionamento: "Que mal fará tapar a parte que atravanca o trânsito da cidade?" e eu respondo que não devemos priorizar, quando se fala em planejamento urbano, automóveis em detrimento de pedestres, a prioridade tem que ser para o ser humano, isso é um cânone quando se olha por essa ótica. Aliás, quando falamos em trânsito, temos que lembrar da hierarquia que existe, o menor (no caso o homem), tem prevalência sobre o maior (no caso, as bicicletas, depois as motos, depois os automovéis e por assim adiante).

Sendo assim, caro Marcelo, creio ter respondido sua pergunta. Quanto à conservação ou não do canal, por parte do poder público, não nos cabe fazer exercícios de futurologia, ao contrário, devemos cobrar de forma enfática, que o mesmo faça a sua parte e use o seu poder discricionário e exija da empresa responsável pelo tratamento do esgoto, que cesse com o despejo de esgoto in natura no canal.

É claro que o canal não é o Rio Tâmisa mas é o Canal Campos/Macaé, é o nosso canal, ele tem importância e valor histórico, caros Marcelo e Gustavo, ele é tombado e tem que ser restaurado em suas características originais, nossa cidade só tem a ganhar, ficará mais bonita, não tenham a menor dúvida.

O mal a ser feito para a cultura da cidade, se o canal for coberto, será irreparável, por isso sou contra, de forma cabal.

Marcelo Bessa Cabral disse...

Este debate em alto nível é importantíssimo. Opiniões à parte, todo mundo fala numa boa aqui, o que é raro na net hoje, né? Muitos logo partem para a ofensa contra quem pensa diferente, mas aqui todos estão de parabéns.
Para fazermos o valão voltar a ser como era, temos que acabar com aquelas placas de cimento, como bem lembrou o Gustavo. Acabemos também com aquelas grades tubulares (afinal, não foram os escravos que colocaram o cimento e as grades lá... kkkk). Se voltarmos "ao paisagismo original" será mais fácil para carros e pessoas caírem lá...
Falo de uma cidade verdadeira, não de uma cidade idealizada. Por isso tenho minhas dúvidas se devemos priorizar os pedestres (também ando a pé). Afinal de contas, dentro dos carros também existem seres humanos (cinco caíram no valão na sexta...). Precisamos de espaços para carros e isso é inegável. Defendo a construção, também, de uma ciclovia no local.
O discurso em defesa do valão é bonito. Lindo, pra ser sincero. Vindo das pessoas inteligentes que escreveram acima, fica ainda mais forte. Mas, seja exercício de futurologia ou não, ninguém nunca vai resolver o problema do valão se não fizer uma cobertura (quem vive de passado é museu).
Todos os argumentos e aulas de História sobre o tema são muito bonitos, mas na prática não resolvem nada: o trânsito ali é um horror (ou alguém pode negar isso?).
E outra: eu não inventei o termo "valão". Todo mundo chama aquela coisa dessa forma. É 'valão' porque é sujo, sim; se fosse limpo seria canal, sim (no Dicionário Michaelis vala é para esgoto; canal é para água. Como tem muito mais esgoto do que água...). Não é pejorativo: é o reconhecimento de que se trata de uma vala enorme. NÃO PRECISAMOS FINGIR QUE AQUILO AINDA É UM CANAL, PORQUE É UM VALÃO, gente! Há décadas é assim e isso não vai ser resolvido com discurso.
Abraço a todos.
OBS: a postagem do Provisano realmente não chegou lá no meu blog. Se chegasse certamente seria publicada, até porque muito me honra receber um comentário dele a um texto meu (mesmo contrária ao que penso).

Marcos Valerio disse...

Caro Sérgio: Achei muito relevante sua argumentação, mas gostaria de saber (sem ironia) como poderemos "cobrar de forma enfática, que o mesmo faça a sua parte e use o seu poder discricionário e exija da empresa responsável pelo tratamento do esgoto, que cesse com o despejo de esgoto in natura no canal."? Gostei muito da idéia!

Rodrigo Rosselini disse...

Se a questão é o trânsito, que se proíba o tráfego de veículos automotores então!!! Não sei se é válido pensar em planejamento urbano à partir do trânsito. Se for assim, o mundo acabará em concreto, asfalto, estacionamentos e muito, mas muito CO2 lançado ao ar. Acho que devemos pensar em planejamento urbano partindo do bem-estar social... e não estamos falando disso, estamos falando de de memória, de patrimônio, até mesmo de turismo. Será que o post sobre Quissamã não esclarece nada? O que vocês querem? Uma nova Detroit, ou coisa que o valha? O que será que transformou o canal em um depósito de esgoto, senão essa visão torta de desenvolvimento? Essa visão de progresso compartilha do mesmo teor ideológico da defesa da cobertura do canal: o crescimento desordenado da cidade lançou o esgoto no canal, e agora, em nome do tráfego de veículos, seguindo a mesma corrente ignorante e economicista (no sentido burro do termo), defende a cobertura do canal. Lastimável.
contamos com um extenso território, espaço não falta para que se construam novas rodovias, elevados e etc... sobretudo em áreas ocupadas por terras improdutivas. Temos que descongestionar o trânsito na área central.. será que ninguém vê isso?
Não é questão de valorizar o canal por ter sido construído por escravos, esse argumento não me é muito simpático... Não interessa se foi feito por escravos ou por trabalhadores livres. O que interessa é que este canal é parte de uma memória que vai muito além da nossa, de uma cidade que vai, e pode ir, muito além da nossa. Faz parte da memória do nosso comércio e agricultura, do nosso desenvolvimento econômico, que se encontra estagnado e, pelo visto, assim continuará, se seguirmos os olhares de turistas e falsos progressistas que pensam pequeno, ao defenderem o conforto dos automobilistas como símbolo de desenvolvimento e bem-estar social.
Acho, meus caros, que falamos aqui de coisas maiores.

Maria disse...

Caro Marcelo, existem alguns pontos em sua argumentação que devem ser repensados. O primeiro qdo fala em "retornar ao paisagismo original", pois a área de conservação de bens móveis e imóveis não considera que a primeira forma seja o passado original da coisa. Todas as fases devem ser evidenciadas no ato de conservar, até mesmo um quadro deve mostrar a intervenção feita para sua conservação. Portanto preservar o canal não significa fazê-lo como um cenário de época. Em segundo lugar coloco o "quem vivie de passado é museu" e pergunto qual foi o último museu que visitou? qual exposição? Pois museu não é só histórico, há de astronomia, de arte naif, arte moderna, de artes e ofícios, da cadeira, entre tantos outros. O local museu surgiu dos gabinetes de curiosidades qdo o homem passou a pesquisar o mundo natural a sua volta tentando diferencia-lo do mundo religioso, e posteriormente abrindo esses espaços a população. Por fim, pergunto o que é uma "cidade verdadeira e não idealizada". Sinto dizer que a cidade já é uma idealização das camadas dominantes. O processo no museu representa selecionar algo como valioso em detrimento a outros, de forma semelhante o governo tb faz esse tipo de valoração. Nos dois casos determina-se uma narrativa para a nossa história e nosso patrimônio por essas instituições. Ou seja, não há verdadeiro. Há o idealizado, não por quem proclama, mas para quem recebe. E mais uma que não entendo: pq aceitamos brilhante ponte que só fez fluir o trânsito de nossa cidade, trazendo cor e beleza ao centro, e não aceitamos o bem mais representativo de que nessa cidade teve escravos? Responder sobre cheiro e estética não vale.

Anônimo disse...

eu também achava o canal horroroso até ver um retrato antigo dele num blog que esqueci qual é, e muita que gente deve pensar igual devia ver esse retrato, pra vê qe era bonito

coloca aí pro povo vê!

Sérgio Provisano disse...

Caro Marcos Valério

A cobrança já começou a ser feita com toda ênfase e veemência, através do artigo publicado pelo Vitor no Monitor Campista e reproduzido no Urgente sob forma de tópico que está bombando, com comentários prós ou contra a cobertura do canal, todos em nível elevado.

Cabe a nós, multiplicar essa discussão que diz respeito à questão da qualidade de vida dos cidadãos dessa cidade que amamos tanto.

A Maria amplia ainda mais essa discussão, com seu comentário cheio de argumentos que só enriquecem o tópico e, acredito que mais comentários de alto nível virão.

Forte abraço.

Rodrigo Rosselini disse...

Excelente, Maria.

Marcelo Bessa Cabral disse...

Ai, meu Deus, pra que eu fui falar que quem vive de passado é museu?... Se eu vou a museus ou não, se eu gosto de museus ou não, é problema meu e não tem nada a ver com o assunto aqui debatido. E que eu saiba o nível cultural das pessoas não é medido considerando-se o quanto se vai (ou não) a museus, nem a opinião de cada um sobre cobrir ou não o valão.
Dizer que "se a questão é o trânsito, que se proíba o tráfego de veículos automotores então!!!" não parece sério... realiza: entre a 28 de Março e a Formosa nenhum carro! kkkkkk
É engraçado querer "descongestionar o trânsito da área central" proibindo os carros naquela parte da cidade. Não seria melhor ampliar a Beira-Valão, tapando aquele monstro e construindo mais pistas e uma ciclovia (ou estacionamento)? Aí descongestiona...
Não sei o que transformou o canal em valão. Só sei que há mais de 30 anos vejo ali um valão. O poeta Artur Gomes - um pouco mais velho do que eu - disse o mesmo, falando em 50 anos. Mas não foi a minha "visão torta de desenvolvimento" a responsável pelo valão, não!
E outra: lastimável (e ofensivo) seria alguém dizer que as pessoas que não querem que o valão seja coberto fazem parte de uma "corrente ignorante" e, digamos, historicista "no sentido burro do termo", como foi dito sobre quem quer tapar. Então, vamos usar argumentos razoáveis e, acima de tudo, respeitar a opinião os outros (ou é crime querer cobrir aquela vala horrível?).
Para mantermos o valão e sermos coerentes com nossa História, então teremos que acabar com o Parque Alberto Sampaio e derrubar a Ponte do Estado. Se não é pra fazer isso - que não dá mais pra fazer - então tapemos a outra parte. É simples.
E, pra finalizar: cidade verdadeira e não idealizada é a do dia-a-dia, o que se tem, seus problemas e não a cidade das questões acadêmicas. O que eu sei é que o trânsito na Beira-Valão é um inferno. Essa é a cidade verdadeira. Temos problemas para resolver "para ontem".
Sugiro um plebiscito (sobre esse tema seria válido) para que a população se manifeste. Perguntemos: "O Canal Campos-Macaé deve ser coberto?" Se o "não" ganhar (isso não vai fazer com que o valão se torne um canal), fico quieto e nunca mais toco no assunto.

Rodrigo Rosselini disse...

Excelente a idéia do plebiscito! Embora saibamos a maneira como eles geralmente são encaminhados. Não sei se estamos num momento oportuno para tal... não sei se as administrações municipais recentes trazem a característica de se bater para temas desta natureza, pois, de fato, nos últimos 30, 50 anos, não parece ser este um interesse público, não passando do interesse de "poucos" "acadêmicos"...
Acho que não tenho mais nada a dizer sobre o assunto, mas que o debate continue.

Rodrigo Rosselini disse...

Basta dar uma olhadinha no Blog do Élvio do Monitor, do instituto historiar, e observar as fotos do canal em Quissamã.

Provisano disse...

Marcelo, a ideia de um plesbicito é ótima, democrática, mesmo porque, seria precedido de um grande debate publico sobre o assunto e, da discussão, aprendi garoto, nasce a luz.

Quanto à demolição da ponte Memorial dos Trabalhadores, não seria necessária, suas bases são ao lado do canal, já o Parque Alberto Sampaio, defendo a sua remoção e a volta ao paisagismo original do antigo Jardim de Alá.

E não sejamos turrões, a cidade tem que ser projetada em função do pedestre, falo isso como Designer que sou, egresso de uma escola que tem como filosofia de formação de seus profissionais, os conceitos preconizados por uma importante escola de Design Alemã, a Bauhaus, que significa, Casa em construção, em eterna construção, como devem ser as cidades, verdadeiros organismos vivos, onde nós seres humanos, somos e sempre seremos, a prioridade.

Devemos, para sermos coerentes, demolir o Parque Alberto Sampaio sim, que é hoje uma área degradada, ocupada por desocupados, nesse tópico concordo com seu questionamento e sugestão. Acatada em sua plenitude.

A ponte construída pelo Estado, trouxe um fluxo maior de carro para a área central da cidade, tornando ainda mais caótico o trânsito nessa área, por isso, defendo que não se circule carros na área central, como é em Porto Alegre por exemplo.

Quanto ao carro que caiu no canal, confesso que para mim, foi um fato inédito, não me lembro disso ter ocorrido antes, mas, com certeza, em baixa velocidade o motorista não estava, pois rompeu a mureta para chegar lá dentro.

É óbvio que quando falamos em recuperar o paisagismo original, nos referimos ao trecho onde hoje é o degradado parque Alberto Sampaio, as muretas, as pontes, as placas de cimento, têm é que ficar como estão. Do McDonald's em diante, ele, o canal, tem que ser limpo, dragado plantar-se muitas árvores, arborizar todo o seu entorno.

Mas o que será feito mesmo, só após o plesbicito que surgirá após esse interessante debate.

Não é preciso ter olhos para ver, isso me fez recordar os versos de uma música de Milton Nascimento, o bardo das gerais: "a cidade é moderna, dizia o cego aos seus filhos..."

Forte abraço.

Antonio.B. F. disse...

Um povo não pode querer preservar um vagão só por ser historia. Hoje em dia só se preserva a história de prédios e locais se forem extremamente importantes e que não prejudiquem a vida humana que está sempre em primeiro lugar. Conviver com valões fedorentos e horríveis só em casos que eles sejam usados para desaguar águas pluviais como no Rio de Janeiro, que se taparem ou cobrirem perderiam a capacidade de absorverem de forma livre e desimpedia as águas de chuvas e todo o lixo que vem junto, que se fossem cobertos entupiriam com facilidade.

Estamos no século XXI e não mais no século XIX. O canal Campos x Macaé aberto não serve pra nada, a não ser para lembrarmos do sofrimento que foi para os escravos abrirem essa vala em toda a sua extensão.

Sou a favor que cubram em toda a área urbana para abrir espaços para os tempos modernos facilitando o trafego para veículos e pedestres.

Antonio B. F.

Yuri Amaral disse...

Uau! Chego aqui um pouco atrasado, é certo, mas impresionado com o debate. Tanto o blogue, quanto os comentaristas estão de parabéns.

Agora vamos à minha opinião: NÃO DEVEMOS TAPAR O CANAL, porquê?

Ratos procuram locais escuros, subterrâneos, para se procriar. Tapar o canal significa, em última análise, aumentar a taxa de procriação dos adoráveis roedores. Ótima ideia, não? Até porque, estando tapado, ninguém verá o esgoto e assim dificilmente se levantará uma bandeira pró tratamento(é bom lembrar que aquela sujeirada toda, nossa por sinal, cai no já sofrido Paraíba). É pra isso que servem os royalties, não para trazer grandes shows, baratear passagens (o velho pão e circo de Roma) e meter no bolso (ops).

Welington Cordeiro já deu sua curta aula de história, para mostrar o valor cultural educativo de manter uma estrutura histórica conservada com vias ao turismo, inclusive. Muito se fala que campos não tem vocação turística, pois digo que não se planejou ainda o turismo campista. Vejam o exemplo de Quissamã, a 20 anos ninguém ouvia falar, hoje é destino turístico.

Quanto aos trintões, quarentões e quinquentões, que nunca viram correr águas limpas pelo canal, qual o problema das próximas gerações verem? Não é porque a décadas o poder público esqueceu este patrimônio que não podemos mudar o rumo e tornar a beira-valão(canal) um local agradável de passear, conversar, tomar um sorvete. Se fosse assim, teríamos que desistir de tantas outras coisas erradas que ocorrem no Brasil e no mundo e são assim desde que nascemos. Talvés por ter completado, na semana passada, meu primeiro quarto de século, me reste disposição para mudar alguma coisa, lutar, levantar bandeiras, restaurar valões, replantar a mata atlântica...

Se o valão atravanca o trânsito do centro da cidade, dou uma nova opção: descentralizem, levem o centro também para a margem norte do Rio Paraíba do Sul (Guarus e demais bairros), afinal, é lá que está a população de campos, não?

Por último, a revitalização é, tecnicamente, fácil de se concretizar. Basta tratar o esgoto - não só o que corre a céu aberto, mas o de toda a cidade. Depois, basta torna-lo esteticamente bonito. Vejam o exemplo de são João del Rei, como um valão pode ser mais bonito, mesmo que corra esgoto por ele (http://1.bp.blogspot.com/_uLSRSmtuavo/Shw01mFYObI/AAAAAAAAAZ4/K9RFWlcVj3U/s1600-h/s%C3%A3o+jo%C3%A3o+del-rei+-+2.jpg). A foto é de uma postagem no meu blogue dendrito.blogspot.com.

Anônimo disse...

Lindo esses debates, a prefeita deve está super feliz, todo mundo querendo ajudar a transformar a nossa Campos esquecida. É isso aí blogueiros, um viva para vcs!!!
Vamos ajudar a melhorar a nossa cidade, além do valão tb temos outros pontos interessantes na cidade para cuidar, vamos lá!!

Débora da Vitória de Jesus. disse...

Gente! Acabo de descobrir uma coisa: este valão não é valão. É canal. E canal de diálogo bonito, gente.É isso aí! Fora uns e outros que escorregaram um pouquinho, mas logo, logo, se equilibraram, passando a bola aqui e ali.
Gente! Há muito tempo que não vejo isso nos blogs. Campos realmente está brilhando. E brilhando tanto que até o valão está servindo de canal para mais brilho cada dia! uauuuu Bravo!!!! Bravo!
Viva o Canal da Beira valão! Vivaaaa!

Quer dizer...viva é modo de dizer, né? Tá legal como canal de diálogo...

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