domingo, setembro 13, 2009

Quais jornais sobreviverão na internet?

Há tempos avalio que os jornais impressos vão acabar. A ANJ (Associação Nacional de Jornais) e algumas empresas do setor até chegaram a comemorar recentemente uma recuperação nas vendas dos exemplares, mas não creio que isso se sustente. No entanto, é comum encontrar em artigos a respeito do tema uma ponderação sobre aos jornais regionais, que tendem a ter, paradoxalmente, vida mais longa que os “jornalões”, em razão da insustentabilidade da internet em pequenos mercados publicitários e do suposto menor acesso à rede nas cidades menores.

Creio ser discutível mesmo esta tese sobre os jornais locais, já que são necessários menos recursos para manter um site ou blog do que para manter um jornal impresso. Além disso, a internet possibilita formas alternativas de financiamento, como a que começa a ser feita diretamente por alguns leitores, como na experiência do spot.us. E quanto ao acesso à rede, não seria difícil comprovar que ele, em cidades como Campos, por exemplo, é muito maior do que o público que consome jornais impressos.

A questão relevante para os jornais, na verdade, é outra: quais deles conseguirão sobreviver na fase pós-impressos, quando terão que competir quase em igualdade de condições com milhões de outras fontes de informação na internet? Quem ainda será relevante quando o caro aparato técnico de impressão não possibilitar mais uma espécie de domínio quase absoluto da informação? Quais merecerão atenção de um público disperso, exigente e permanentemente convidado a clicar por outras bandas?

Pode ser que, com o fim dos jornais, encerre-se um tipo de jornalismo. Isso tem aspectos danosos e aspectos positivos. Um problema é o de que os jornais impressos representam, hoje, o maior esforço profissional de apuração e publicação de notícias, de modo contínuo e com menor dependência do caráter de entretenimento das TVs, emissoras de rádio e até mesmo de grandes portais da internet. Dito de outro modo: as maiores redações jornalísticas e o melhor conteúdo estão nos impressos. Esse tipo de fazer jornalístico pode se perder.

Todo este bom conteúdo dos impressos também está, claro, nas páginas dos próprios jornais na internet, mas a questão é saber se ele continuará depois que o prestígio da edição impressa deixar de existir.

O lado bom é o fim dos pequenos feudos de informação. Já foi dito, sobre a impressa regional norte-americana, que ter um jornal local equivalia a ter uma máquina de fazer dinheiro. Não são desconhecidas do público as relações nefastas que muitos empresários da imprensa, assentados no poder da sua máquina de influência, mantiveram e ainda tentam manter com os representantes dos poderes político e econômico de uma determinada região. São os que deixaram de vender informação para serem negociantes de ameaças. Como diz um amigo jornalista sobre este tipo de comportamento, há um preço para falar bem, um preço para falar mal, um preço para falar bem do atual aliado e mal do seu opositor, um preço para ficar calado, numa tabela de cinismo que está a cada dia mais evidente para o leitorado.

Se esse tipo de jornalismo acabar, não fará falta. O que se espera, no entanto, é que o bom jornalismo não morra junto com ele.

[Artigo publicado na edição de hoje do Monitor Campista]

4 comentários:

zebulom disse...

Que texto, hein, Vitor!
Gostei de ler isso.

Por que os blogs não se enveredam por este caminho da palavra bem colocada? Da informação bonita?

Penso que se acabarem os jornais, vão acabar também este tipo de texto. Você como jornalista e outros por aqui, escrevem para leitores inteligentes.

Tudo bem que às vezes, você escorrega na maionese, mas é na maionese caseira e dá para levar muito bem. Tem um sabor diferente...(rsrs).

Quanto a tudo o que você disse aí, foi bem esclarecedor.

Mas olha, Vitor, o problema não são os jornais, ou as empresas, ou os protagonistas. O problema é o homem/mulher. O Caráter do homem /mulher.Se vendem com mjuita falicidade. Se vendem por tdo e nada.

As pessoas ainda não sabem separar as coisas. Tomam partido e pelo partido "partem" até o que é direito, honroso, sério. Hà muito engano, mentira, panos quentes.
Se não houvesse pessoas sem carater, não haveria imprensa sem caráter. Não haveria empresa sem carater. Tem que haver uma "reforma" no ser humano.

Mas... veja... se alguém propõe esta reforma é banido dos blogs!!!
Onde vamos parar?

"A humanidade não tem futuro porque o Homem é um ser perverso!"
Cristóvam Buarque citando alguém e sugerindo um debate ao falar sobre a UNESCO.

É isso... Vitor!

Espero que não achem ruim de você postar esse...

( Por que será Cristovam Buarque se lembrou daquela frase, hein?
Afinal foi escolhido em seu lugar um egípcio... ( peritos em oprimir... mas ninguém quer ler entre as linhas do objeto, né?

E ainda querem banir os que propoem uma leitura de mundo...

ah... Paulo Freire...se você soubesse...
Cristovam Buarque?É muito jumental!E aí...né?

Rodolfo Lins disse...

Olá Vitor, tudo bem?
Durante as últimas décadas vimos a tecnologia banir não apenas objetos, mas também hábitos e costumes comuns ao nosso dia-a-dia. A geração mais nova sequer sabe o que é um filme Tri-X (ou mesmo câmera de filme), máquina de escrever, relógio analógico (as crianças de hoje não sabem ver as horas nos ponteiros) e muito mais. Qual foi a ultima vez que você ouviu a expressão "bença pai..bença mãe!"? E por aí vai.
Mesmo assim, não acredito que o jornal impresso esteja com o pé na cova. O brasileiro gosta muito de coisas tangíveis. Tocar o papel, folhear as páginas procurando um classificado, foto ou matéria,rabiscar, marcar, são gestos que ainda vão ter lugar cativo no nosso cotidiano. Haja visto os e-books. Quem tem saco pra ler um livro na tela de um notebook? O fim da informação impressa traria uma grande catástrofe econômica, social e cultural. Espero que aquele agromerado de pessoas em frente as bancas de jornais, ávido pelas últimas notícias, que serão motivos de especulações, comentários e fofocas durante o dia, demore muito a acabar. Assim espero!
Abraços.

Vitor Menezes disse...

Valeu, seu Lins, abração!

zebulom disse...

Vitor faz de conta que nem existo, né?
Tem problema não.. Tô acostumada mesmo...rsrsrs

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