domingo, novembro 08, 2009

Um caso para não esquecer

Apesar de ser um drama abrangente, pontuado por um caso dramático, a queimada de cana que resultou na morte da trabalhadora Cristina Santos, 49 anos, no dia 29 de setembro passado, não mereceu mais a atenção da imprensa local. E mesmo à época, no registro da tragédia, o tratamento dado foi o mesmo com que são banalizados os demais casos de polícia.

O assunto só não desapareceu por completo em razão da atenção dada pela Comissão Pastoral da Terra, pela CUT-RJ (Central Única dos Trabalhadores) e pelo Ministério Público, que promove investigações para buscar propor ação contra os possíveis responsáveis.

Matéria de página inteira do jornal “Brasil de Fato”, publicação nacional semanal, afinada com movimentos sociais e com partidos de esquerda, também contribuiu para manter a memória do homicídio ao cobrir como se deve um fato dessa magnitude.

Reportagem de Leandro Uchoas lembrou que “as queimadas que a mataram já estão condenadas em instâncias internacionais há anos. Provocam aumento das concentrações de ozônio e de monóxido de carbono na atmosfera. No Brasil, alega-se que a mudança para uma colheita sem queimadas deve ser gradual, por questões econômicas”.

O excesso de zelo econômico brasileiro, na prevenção aos supostos prejuízos de uma minoria, promove calendários esticados como este: “O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (PT), anunciou no início do ano planos de reduzir as queimadas em 20% até o ano que vem, e 50% até 2014. Em onze anos as eliminaria”, registrou o jornal.

A mesma reportagem, no entanto, também mostrou que “o princípio de se queimar apenas à noite, para poupar o trabalhador, é completamente desrespeitado em Campos”, como qualquer campista pode verificar olhando para o céu ou para as roupas no varal.

O caso Cristina deve gerar punição exemplar, para que se torne um marco do fim dos desmandos canavieiros na região. Os usineiros, que se acostumaram, ao longo dos anos, a comprar autoridades e a financiar a imprensa, precisam saber que nem todos os setores da sociedade estão sob seus domínios.

Além disso, os recorrentes casos de trabalho escravo terminam por deslegitimar o modo como a atividade canavieira é desenvolvida em Campos, produzindo sofrimento para as suas vítimas e vergonha para os campistas, que já  carregam o fardo de viver na cidade “que foi a última a libertar os seus escravos”.

Ouvido na matéria do “Brasil de Fato”, o professor Aristides Soffiati mostrou que nem mesmo para os negócios este comportamento ultrapassado faz bem: “Eles [os usineiros] continuam com a postura aristocrática do século XIX e acabaram perdendo espaço para São Paulo e Minas”, disse.

Pelo visto, o que se há de lamentar, então, é que não tenham perdido algo mais do que espaço. Mantidas estas condições de exploração criminosa e assassina, este é um setor que seria melhor deixar de existir.








[Artigo publicado na edição de hoje do Monitor Campista]

2 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Oportuno o texto. Afinal, no momento em que os capitães donatários locais clamam chorosamente por mais recursos públicos esta morte ilustra a persistência do trabalho subhumano na região. E sob o silêncio obsequioso da sociedade local. Incluso o CDL, a "sociedade civil", o poder local e até mesmo boa parte da blogosfera.

Rosângela disse...

George, o que faz este tipo de absurdo é a falta de humanidade nas pessoas egoístas que só pensam nelas e em seus espaços buscando o que lhe é próprio.

Se o realacionamento entre os iguais está para lá de desumano, o que es esperar dos diferentes?

O mundo precisa reconhecer que somos prceiros nesta agonia. E que precisamos reconhecer nossa desumanidade nas relações e é preciso humildade para tal rconhecimeno.

As manifestações sobre as injustiças são sempre resultados de picuinhas, para provarem sempre que o adversário está errado. Mas quando forem resultados de verdadeiro amor ao próximo, não haverá essa manifestação maldosa mas um dar as mãos em busca de verdadeira justiça. Isto só com Jesus, pois a base do trono de Jesus é Justiça e Juízo.

Eu tinha uma amiga que quando vinha para a Faculdade, vinha com a roupa preta de fuligem. Um absurdo. Morava numa casa na Usina onde o forro era de tecido que rasgava e caía pó preto. Aquilo cortava meu coração. Que absurdo! Quanto mais a pessoa tem mais quer ter às custas do sacrifício de outros.

E hoje sabemos que as leis são feitas por este tipo de gente. Se as pessoas não forem transformadas em seu íntimo, jamais veremos mudança, pois muitos querem mudanças institucionais,se esquecendo que uma instituição é feita de pessoas. E se aparece alguém propondo, sem nenhuma pretensão, mudnças nos coraç~es destas pessoas, são subhumanamente tratadas.Imagine!

users online