domingo, outubro 11, 2009

Legalize já

A edição de setembro do Le Monde Diplomatique Brasil trouxe um conjunto de artigos que sustentam a inviabilidade da manutenção da política de proibição do uso de drogas. Assim como tem ocorrido com a questão ambiental, este é um tema que o mundo precisa priorizar na agenda dos governos e das entidades dos movimentos sociais.

Fruto, especialmente, de um movimento moralista puritano nos Estados Unidos do início do século XX, a proibição do uso de drogas – na época, com maior foco sobre o álcool, com a aprovação, em 1919, da Lei Seca – se estabeleceu como política de estado e tem justificado investimentos bilionários em uma guerra sem fim.

O consumo não diminuiu, a violência aumentou, e a sociedade estigmatizou como sendo “criminosas” milhões de pessoas que fazem uso de drogas, mas, no entanto, levam vidas como as de quaisquer outros cidadãos.

A humanidade sempre conviveu com o uso de substâncias entorpecentes. Seja em rituais religiosos, seja por puro lazer, seja para fugir da pressão da realidade – a famosa cervejinha no final do expediente não é outra coisa –, a experiência prazerosa das drogas pôde ser livremente vivenciada até o século XIX.

Os excessos, os danos à saúde, os crimes associados à falta de consciência ou à necessidade do consumo, a dependência que escraviza, são, por outro lado, os elementos que ganharam robustez no discurso moralista, aliado a outros interesses econômicos e políticos, e acabaram por estabelecer o amplo convencimento acerca da prática de proibir o uso das drogas.

No entanto, mesmo em relação a estes aspectos, a política de proibição se mostrou desastrosa. Os chamados “excessos” tendem a ser maiores quando os usuários de drogas são estigmatizados. Os impactos negativos sobre a saúde poderiam ser menores se políticas de redução de danos pudessem ser adotadas e campanhas de conscientização fossem livremente realizadas, o que também vale para a dependência química. E a criminalidade associada ao tráfico e ao uso poderia ser reduzida se comprar drogas hoje ilícitas fosse tão natural quanto comprar as drogas hoje disponíveis nas farmácias.

No próprio Le Monde, o repórter Caco Barcellos, entrevistado por Maíra Kubik Mano, conta que, num condado norte-americano, um juiz percebeu que os constantes assaltos a banco na comunidade estavam associados ao uso de cocaína. Com salários baixos, alguns usuários se tornaram assaltantes para saciar a dependência da droga.

Nos julgamentos destes casos, ele passou a oferecer a oportunidade que o réu escolhesse entre a prisão e o tratamento com acupuntura, de modo a manter o uso em volumes suportáveis pela saúde do usuário e compatíveis com o seu bolso. Se o condenado, depois de um determinado período, chegasse a consumir 10% do que consumia à época do assalto, o juiz o liberava. O próprio Barcellos assistiu cerca de 50 julgamentos assim. O número de assaltos caiu 80%.

[Artigo publicado na edição de hoje do Monitor Campista]

5 comentários:

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

Não só em questão de drogas, Vitor, mas em qualquer questão da vida humana, todo legalismo é "não tansformador".

Por isso que peço a Deus que transforme as pessoas por dentro...A mudança tem que ser de dentro para fora, Vitor.
Pois independente de termos ou não leis, as coisas que são feitas no oculto são as piores. E tem muita coisa em oculto, Vitor.
Com leis, sem leis, o mundo vai de mal a pior. Por isso, o mais importante é que o amor de Deus entre dentro das pessoas URGENTE!

Obrigada por postar!

Rosângela

anintsh

Splanchnizomai abraçando o amanhã. disse...

E só tem como opção a acupuntura? E se não quiser acupuntura?

Anônimo disse...

Prezado Bloqueiro,

você não vai fazer nenhum comentário sobre a compra do Monitor Campista pela PMCG? É verdade que vão pagar 7 milhões, como o Xacal informa em seu blog?
Mesmo que fosse 1 real. É um absurdo o governo local torrar esse dinheiro comprando literalmente com um jornal. Gente, onde já se viu comprar um veículo de comunicação, numa cidade que possui várias prioridade. ISSO SÓ ACONTECE EM CAMPOS.
Agradeço deste já o espaço democrático para enviar este meu questionamento.

Vitor Menezes disse...

Caro anônimo, este urgente! foi o primeiro a tratar do assunto. Abraços!

Yuri Amaral disse...

Apoiado!

Só um parênteses: quando gabeira falava da legalização da maconha, a imprensa caia em cima. Hoje, FHC se tornou um defensor da causa, e a imprensa o trata como o senhor da razão. Curioso, não?

Acho que este é o momento. Como disse o Minc, a argentina está goleando o brasil...

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