segunda-feira, junho 17, 2013

[croniquinha de segunda]

A gargalhada silenciosa

Vitor Menezes


Era uma gargalhada sem som em contraste com a noite. Em dentes alvos e incisivos. E era um olhar risada que poderia desintegrar a quem apontava.

Eu não sabia que isso existia. Descobri dia desses. Matar alguém, ainda que metaforicamente, apenas com um riso silencioso. Não poderia imaginar.

Não era um anti-riso. Não era um deboche. Era uma boca aberta no ar como que a condenar o ridículo do próximo e de todas as autoridades constituídas e de todas as formas de seriedades do mundo e de todos os modos barulhentos de rir.

Queixo erguido de um rosto redondo que, quando apontado para o céu para a posição de ataque, se torna afilado. Olhos negros e miúdos, sob sobrancelha grossa e severa. É esta a moldura dela, da gargalhada sem som. E se chama Camila a sua dona. Ou seria a gargalhada a dona da mulher? (que, como que possuída, não pode contê-la e se põe a gargalhar involuntariamente).

O enigma me atordoou por dias. Como pode isso? Como pode alguém gargalhar sem som?

Dividi a minha angústia com os amigos que testemunharam a cena. Nem mesmo a dona (ou a propriedade) da gargalhada havia se dado conta da sua excepcionalidade. Então passou-se a considerar o potencial daquele dom: ideal para utilizar em velórios e palestras. Perfeito para não atrapalhar gravações de rádio ou TV. Indicado para missas. Oportuno para experiências com cinema mudo. Fotogênico.

E a todo momento eu queria rever aquela exclamação insidiosa em forma de lábios e dentes. Era disso que se tratava, de um enorme ponto de exclamação. Creio que jamais verei gargalhada como aquela em outras bocas.

Sabe aquela letra do sempre Chico que diz que “o velho cantor subindo ao palco apenas abre a voz, e o tempo canta”?

Pois Camila abre a boca e a noite ri. De nós. E em silêncio.

3 comentários:

users online