sexta-feira, abril 08, 2005

[senta que lá vem poesia]

Karol

leva tempo despojar o homem de todo papa
deve-se deixá-lo dormir como se morto de fato estivesse

alguém percebe a fumaça branca esvaindo-se lentamente do homem?
mãos invisíveis extraindo dele as sete chaves das sete portas
os sete clamorosos selos do poder...

demanda tempo ressuscitar então o homem no papa
mesmo que para vê-lo por um instante mortalmente frágil, humano

por isso não é tão simples morrer sendo papa, embora morto
por isso é infinita a paciência dos papas que morrem

(tão próximos do eterno repouso
e tão interminavelmente longa
a espera derradeira)

cumprida enfim a lenta exumação do eterno em vida
vai o homem despido de papa
devolvido ao povo

o filho apenas, o irmão, o ermo conterrâneo
despedindo-se já sem nenhum aceno de sua íntima, numerável

e terrena vizinhança

Everardo Andrade

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