quinta-feira, setembro 16, 2010
Eike recusou projeto de carro nacional na década de 90
A história é contada no livro "Gurgel - Um brasileiro de Fibra", de Lélis Caldeira, e dá conta do chá de cadeira que Eike deu em Gurgel, durante toda uma manhã, para terminar por não recebê-lo, quando foi apresentar seu projeto de um carro nacional.
Gurgel voou de São Paulo para o Rio, levando na pasta a sua proposta, e chegou ao escritório de Eike às 8h da manhã, horário marcado para a reunião. E se manteve em horas de espera até que ouviu da secretária que acabara de receber uma ligação, às 12h30, o seguinte:
"O doutor Eike pediu para avisá-lo que infelizmente não poderá atendê-lo hoje. E pediu que o senhor volte outro dia".
Gurgel saiu do escritório de Eike. E nunca mais voltou. Morreu em 30 de janeiro de 2009, aos 82 anos, quando, vítima de Alzheimer, não mais se lembrava deste e de nem de outros dissabores da vida.
[Furgão Itaipu E-500, o primeiro carro elétrico do Brasil, que chegou a ser utilizado em frotas de empresas na década de 1980 - Foto: Divulgação]
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Vitor Menezes
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domingo, maio 24, 2009
Os 30 anos da Gurgel
Se não for o próprio leitor, como eu, um dos raros proprietários de um daqueles carrinhos estranhos da Gurgel, é possível que já tenha visto um deles pelas ruas. Eles parecem ter saído de um filme de época, alguns são meio parecidos com caixas de fósforos, outros com furgões desajeitados, e fizeram relativo sucesso nas décadas de 70 e 80.
Se design não era o forte da Gurgel, todo o restante compensava. E, neste ano de 2009, quando no próximo 1° de setembro porventura alguém se lembrar da passagem dos 30 anos da fundação da empresa, o Brasil poderá render homenagens a um pioneiro em muitos aspectos.
João do Amaral Gurgel, o cérebro e o sobrenome por trás da marca, a julgar pela sua biografia recentemente publicada (Gurgel – Um Brasileiro de fibra (Alaúde), do jornalista Lélis Caldeira), antecipou muitas tendências que viriam a ser incorporadas pelo setor automobilístico.
Se só agora os Estados Unidos declaram guerra aos carrões beberrões, ele já o fizera com seus projetos a partir da inauguração da fábrica em 1969. Determinado a criar veículos adaptados às condições brasileiras, seus jipes pequenos e econômicos, com mecânica rude da Volkswagen, eram concebidos para suportar os piores trancos das estradas em má conservação ou até da ausência de estrada.
A carroceria de fibra o transformou em modelo muito utilizado também nas praias brasileiras, já que ele, como um buggy, encara a areia sem problemas. No modelo encomendado pelo Exército, havia até uma pá presa à porta, para o caso de ficar atolado – além do rústico cabo de aço enrolado na frente da série Xavante.
Outro aspecto do seu pioneirismo custou a própria existência da empresa. Gurgel achava a industrialização brasileira muito concentrada no Sudeste, e também avaliava que era caro manter a distribuição dos seus carros no Nordeste do País, onde eram bem aceitos. Daí que desenvolveu o projeto de uma fábrica no interior cearense, nos anos 90, e firmou parcerias com os governos federal e dos estados de São Paulo e do Ceará, na época comandados respectivamente por Itamar Franco, Luiz Antônio Fleury e Ciro Gomes, para obter financiamentos para a produção.
Por motivos misteriosos, mesmo após assinado um protocolo de intenções, os três voltaram atrás e cancelaram o repasse de recursos. E quis o destino que um personagem que viria a ser muito conhecido no Norte Fluminense, o empresário Eike Batista, também ganhasse um papel não muito honroso nessa história. Foi ele quem deixou o empresário esperando por toda uma manhã, e depois não o recebeu, na última tentativa de Gurgel de encontrar um parceiro para levar adiante o seu projeto de produzir um carro 100% nacional.
A Gurgel teve falência decretada em 1996. E João Amaral, que sofria do Mal de Alzheimer e não mais guardava na memória os seus grandes feitos, morreu aos 82 anos em 30 de janeiro passado.
[Artigo publicado na edição de hoje do Monitor Campista]
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Vitor Menezes
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10:15
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