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quinta-feira, setembro 16, 2010

Eike recusou projeto de carro nacional na década de 90

Curiosa a intenção manifestada pelo empresário Eike Batista de fabricar, no Brasil, um carro elétrico. Provavelmente deve estar pensando em saldar uma dívida consigo mesmo. É que o primeiro carro elétrico do Brasil foi fabricado por João Amaral Gurgel na década de 1980 e, assim como vários outros projetos visionários da sua empresa, foi sabidamente sabotado por interesses poderoros do setor e por governos. E o último grande apoio que Gurgel tentou obter para manter de pé o sonho se seguir construindo carros brasileiros, depois da falência da Gurgel em 1996, foi justamente o de Eike Batista. Uma vez falei disso aqui.

A história é contada no livro "Gurgel - Um brasileiro de Fibra", de Lélis Caldeira, e dá conta do chá de cadeira que Eike deu em Gurgel, durante toda uma manhã, para terminar por não recebê-lo, quando foi apresentar seu projeto de um carro nacional.

Gurgel voou de São Paulo para o Rio, levando na pasta a sua proposta, e chegou ao escritório de Eike às 8h da manhã, horário marcado para a reunião. E se manteve em horas de espera até que ouviu da secretária que acabara de receber uma ligação, às 12h30, o seguinte:

"O doutor Eike pediu para avisá-lo que infelizmente não poderá atendê-lo hoje. E pediu que o senhor volte outro dia".

Gurgel saiu do escritório de Eike. E nunca mais voltou. Morreu em 30 de janeiro de 2009, aos 82 anos, quando, vítima de Alzheimer, não mais se lembrava deste e de nem de outros dissabores da vida.

[Furgão Itaipu E-500, o primeiro carro elétrico do Brasil, que chegou a ser utilizado em frotas de empresas na década de 1980 - Foto: Divulgação]

domingo, maio 24, 2009

Os 30 anos da Gurgel

Se não for o próprio leitor, como eu, um dos raros proprietários de um daqueles carrinhos estranhos da Gurgel, é possível que já tenha visto um deles pelas ruas. Eles parecem ter saído de um filme de época, alguns são meio parecidos com caixas de fósforos, outros com furgões desajeitados, e fizeram relativo sucesso nas décadas de 70 e 80.

Se design não era o forte da Gurgel, todo o restante compensava. E, neste ano de 2009, quando no próximo 1° de setembro porventura alguém se lembrar da passagem dos 30 anos da fundação da empresa, o Brasil poderá render homenagens a um pioneiro em muitos aspectos.

João do Amaral Gurgel, o cérebro e o sobrenome por trás da marca, a julgar pela sua biografia recentemente publicada (Gurgel – Um Brasileiro de fibra (Alaúde), do jornalista Lélis Caldeira), antecipou muitas tendências que viriam a ser incorporadas pelo setor automobilístico.

Se só agora os Estados Unidos declaram guerra aos carrões beberrões, ele já o fizera com seus projetos a partir da inauguração da fábrica em 1969. Determinado a criar veículos adaptados às condições brasileiras, seus jipes pequenos e econômicos, com mecânica rude da Volkswagen, eram concebidos para suportar os piores trancos das estradas em má conservação ou até da ausência de estrada.

A carroceria de fibra o transformou em modelo muito utilizado também nas praias brasileiras, já que ele, como um buggy, encara a areia sem problemas. No modelo encomendado pelo Exército, havia até uma pá presa à porta, para o caso de ficar atolado – além do rústico cabo de aço enrolado na frente da série Xavante.

Outro aspecto do seu pioneirismo custou a própria existência da empresa. Gurgel achava a industrialização brasileira muito concentrada no Sudeste, e também avaliava que era caro manter a distribuição dos seus carros no Nordeste do País, onde eram bem aceitos. Daí que desenvolveu o projeto de uma fábrica no interior cearense, nos anos 90, e firmou parcerias com os governos federal e dos estados de São Paulo e do Ceará, na época comandados respectivamente por Itamar Franco, Luiz Antônio Fleury e Ciro Gomes, para obter financiamentos para a produção.

Por motivos misteriosos, mesmo após assinado um protocolo de intenções, os três voltaram atrás e cancelaram o repasse de recursos. E quis o destino que um personagem que viria a ser muito conhecido no Norte Fluminense, o empresário Eike Batista, também ganhasse um papel não muito honroso nessa história. Foi ele quem deixou o empresário esperando por toda uma manhã, e depois não o recebeu, na última tentativa de Gurgel de encontrar um parceiro para levar adiante o seu projeto de produzir um carro 100% nacional.

A Gurgel teve falência decretada em 1996. E João Amaral, que sofria do Mal de Alzheimer e não mais guardava na memória os seus grandes feitos, morreu aos 82 anos em 30 de janeiro passado.

[Artigo publicado na edição de hoje do Monitor Campista]

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